Dois homens e uma herança maldita

"A conversão tardia de Lula ao equilíbrio fiscal não passa credibilidade; o discurso de Flávio Bolsonaro é contraditório e repleto de lacunas"

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Seja quem for, o presidente da República a partir de 2027 terá de lidar com uma herança maldita. Se for Flávio Bolsonaro, receberá do governo Lula. Se for Lula, será do seu próprio governo, fato que não deixaria de ter seu nível de ironia. Pois não partiu de Lula o escrache da herança maldita proveniente em 2003 do governo de Fernando Henrique e, em 2023, da administração Bolsonaro?

Para ficar na área econômica, o mais maldito item da próxima herança será a dívida pública de R$ 11,1 trilhões e, mais do que o volume, preocupa a velocidade com que se multiplica, acima do avanço da atividade econômica, em direção aos 100% do PIB.

É apenas um pedaço da verdade a de que essa esticada se deve aos juros altíssimos, de 13,75% ao ano. Essa enormidade se deve ao rombo fiscal, explícito e disfarçado, cuja proporção o presidente Lula insistiu em menosprezar.

Esse mesmo baú herdado contém as contas da Previdência Social, que há muito não fecham e que exigem reforma politicamente dolorosa, porque implica aumento tanto da idade mínima quanto do piso da aposentadoria e, além disso, aumento das contribuições.

Depois de ter ridicularizado repetidos apelos da sociedade pela responsabilidade fiscal e depois de ter despejado, somente neste ano, R$ 250 bilhões eleitoreiros, "de helicóptero", o presidente Lula parece ter-se dado conta do tamanho dos estragos produzidos pela sua atração abissal pelo rombo. Depois da tunda eleitoral, passou a indicar que cuidará melhor das contas públicas. Mas essa conversão tardia ao equilíbrio fiscal não passa credibilidade. Não vem com a força com que chegou em 2002 a Carta ao Povo Brasileiro, por meio da qual o então o candidato Luiz Inácio Lula da Silva se comprometia "com a responsabilidade fiscal (...) e com a busca persistente pelo superávit primário".

Sobre esse tema, o candidato Flávio Bolsonaro recita um discurso diferente. Promete a obtenção de um superávit primário de 2% do PIB, o que impõe cortes de pelo menos R$ 250 bilhões em despesas Menciona tesouraços nos cargos públicos e no número dos ministérios, redução de subsídios, de privilégios e de penduricalhos e venda de imóveis da União.

Qualquer um sabe que, embora saudáveis, providências assim não passariam de lixações de unha.

Em contrapartida, Bolsonaro nega que o ajuste se fará sobre os ombros dos aposentados e da população de baixa renda. Promete, ainda, derrubar impostos e encargos sociais das empresas. Enfim, é um discurso contraditório e repleto de lacunas, que não passa firmeza a ninguém.

Ajudaria saber como se comporia e como pensaria a equipe econômica de um possível governo Flávio Bolsonaro, a ser comandada por um novo "posto Ipiranga", que, na temporada do Bolsonaro-pai, foi um cargo entregue ao economista conservador Paulo Guedes.

Celso Ming é jornalista e comentarista de economia.

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