A palavra de pedra

... as imperfeições, as esculturas e as marcas dos cinzéis dos operários eram a "caligrafia" da história de um povo

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IGREJA GÓTICA

Na obra Nossa Senhora de Paris (ou O Corcunda de Notre-Dame), o escritor francês Victor Hugo (1802-1885) afirmou que a "arquitetura é uma palavra de pedra". Referia-se ao estilo gótico, presente na Europa entre os séculos XII e XV, que guardava os registros históricos, intelectuais e sociais da humanidade antes da invenção da imprensa (c. 1439-1440).

Durante séculos, escrever foi um trabalho restrito a poucos letrados e limitado pelos materiais disponíveis (o pergaminho na Europa e o papiro no Egito, por exemplo). Como dependia da cópia manual, publicar uma obra demorava muito tempo, e as edições eram raras. Na Idade Média, o clero usou os vitrais das igrejas góticas para difundir as Sagradas Escrituras entre a população, em sua maioria analfabeta. As passagens bíblicas eram representadas nas imagens que compunham os vitrais, às vezes em sequências.

A arquitetura gótica teve origem urbana, pois acompanhou o ressurgimento das cidades, e as igrejas eram erguidas com base na experiência dos mestres de obras. As construções levavam décadas (como a Basílica de Saint-Denis) ou séculos (como as catedrais de Colônia e de Milão) e registravam os percalços a que foram submetidas durante as obras.

Em As Pedras de Veneza (1851-1853), o inglês John Ruskin (1819-1900) fez afirmação semelhante ao descrever a arquitetura como "as pedras que falam". Para ele, as imperfeições, as esculturas e as marcas dos cinzéis dos operários eram a "caligrafia" da história de um povo.

No século XX, Adolf Hitler também afirmou que a "arquitetura é uma palavra de pedra", mas com outro significado. O ditador nazista queria uma arquitetura majestosa, resistente ao tempo e capaz de se tornar, no futuro, ruínas imponentes para as gerações seguintes. Ele afastou os significados culturais e históricos da expressão e atribuiu-lhe sentido político, de exaltação da "raça ariana" e do nazismo, ideologia do Estado.

Após o fim do nazismo e da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), as expressões "palavra de pedra" e "pedras que falam" recuperaram seus verdadeiros sentidos. Ambas representam a solidez da arquitetura, sua tradução em obras materiais e duradouras e o registro cultural e histórico que lhes deu origem.

Em conclusão, Victor Hugo e John Ruskin tinham plena razão ao consagrar essas afirmações em suas obras, pois cada igreja gótica, assim como outras construções, representa e transmite conhecimento e história. O nazismo foi merecidamente extinto, e, nos dias de hoje, aquelas frases evocam também a solidez material que permite que os valores de cada época e lugar façam de cada obra construída uma fonte da cultura e da história da humanidade.

Marcelo Augusto Paiva Pereira é arquiteto e urbanista.