Caminhos, olhares e sombras: a sociedade mineradora e Cecília Meireles
Com rara sensibilidade, a poetisa Cecília Meireles publicou, em 1953, a obra Romanceiro da Inconfidência. Fruto de intensa pesquisa e vivência na região mineradora, o livro constrói um retrato que é, simultaneamente, poético e histórico. Mais interessada na psicologia sensível do que nas explicações puramente econômicas, a autora capturou o desejo quase doentio pelo ouro, um vício que arrancava a identidade dos homens e os deixava "mortos, mas não fartos".
No século XVIII, a descoberta desse metal em Minas Gerais foi a salvação de um Portugal em decadência frente às potências emergentes. Atraídos pela riqueza, aventureiros e bandeirantes de várias classes sociais rumaram para a região, movidos pela "sede de ouro" que Cecília tão bem demonstrou na literatura. É esse cenário tenso, repleto de esperanças, decepções e ideais revolucionários, que a obra evoca.
Ao explorar essas memórias, a autora se coloca na pele de Tiradentes para expressar a amargura da traição. A própria palavra "inconfidência" remete à quebra de confiança, ao ato de revelar um segredo — ou, na linguagem popular, de "bater com a língua nos dentes". O medo mastigado pelos conspiradores culminou na delação que vitimou Joaquim José da Silva Xavier, cuja profissão, ironicamente, era dentista.
Esses ventos subversivos chegaram à distante Vila Rica inspirados pelo Iluminismo e pela Revolução Americana de 1776. Em 1786, o estudante brasileiro José Joaquim Maia e Barbalho chegou a trocar cartas com Thomas Jefferson, então embaixador americano na França, buscando apoio para estabelecer uma república no Brasil. O futuro presidente dos EUA, contudo, explicou que não poderia se comprometer sem a garantia de apoio interno.
A difusão dessas "abomináveis ideias francesas" em Minas ocorria por meio do contrabando de livros. Como relata o intelectual Eduardo Frieiro no ensaio O Diabo na Livraria do Cônego (1946), a biblioteca confiscada do inconfidente e cônego Luís Vieira da Silva continha mais de 700 volumes, incluindo a Enciclopédia Iluminista. A presença dessas obras raras comprovava a perigosa circulação de ideias contra o poder da Coroa.
Além de intelectuais, vários inconfidentes haviam estudado na Universidade de Coimbra, recém-reformada pelas ideias iluministas da Era Pombalina, e também eram poetas. Entre eles estavam Cláudio Manuel da Costa, Alvarenga Peixoto — a quem se atribui o dístico latino da bandeira mineira, Libertas Quae Sera Tamen — e Tomás Antônio Gonzaga, autor das satíricas Cartas Chilenas e imortalizado pelas liras de Marília de Dirceu.
Contudo, o único rebelde a ter a condenação de morte confirmada foi Tiradentes. Por ter uma origem social menos abastada e para servir de exemplo, ele assumiu a culpa no julgamento, sendo enforcado e esquartejado no Rio de Janeiro. Sua cabeça foi exposta em uma estaca em Vila Rica e desapareceu misteriosamente dias depois, o que gerou a lenda de que teria sido roubada por uma namorada.
Cecília Meireles recuperou de forma brilhante essas sombras esquecidas em tragédias. Ao buscar fontes primárias, ela realizou um verdadeiro trabalho historiográfico. Em Romanceiro da Inconfidência, a literatura aproxima-se do real para desvendar os olhares furtivos, os segredos e a penumbra onde a identidade brasileira começou a ser forjada.
Henrique Cavalcanti de Albuquerque é professor e membro efetivo da
Academia Sorocabana de Letras.