A megalópole e Sorocaba!
Equívoco é pensarmos ser a história uma ciência que tem por objetivo única e exclusivamente o passado. Este sim é o seu alicerce, elemento sólido, concreto, objeto de estudos devidamente documentados. O presente nada mais é do que a resultante desse pretérito, mas é o momento da ação, adequação e até mesmo modificar os rumos anteriormente traçados. Graças a esse detalhe, pode o historiador contemporâneo, refletir e ter a percepção de acontecimentos que poderão vir a ser consequências de nossas ações. Antever o futuro, ou direcioná-lo não é novidade, muitos historiadores já o fizeram e por isso recebem algumas outras denominações, como visionários. O homem sábio, é aquele que com o conhecimento do passado, traça estratégias no presente para vislumbrar um futuro. Partindo então das possibilidades/recursos, que dispõe traçar os rumos que deseja, existe sempre à sua disposição um leque de opções, são sonhos a serem alcançados, que uma vez definidos, se transformam em desafios. É isso mesmo o que desejamos? Hoje decidimos apresentar em breves palavras um único ponto tático, mas que se constitui no irrefreável confronto com o mecanismo que gera o desejado crescimento de nossas cidades. Quantas vezes observamos administradores se gabarem do crescimento exponencial de suas cidades. Existe claro um lado positivo assim como também e talvez até mais problemático o negativo. Há cidades como Sorocaba, que parecem cópia de muitas outras - o vertiginoso crescimento horizontal criou impactos econômicos que a fazem projetar-se para a verticalização. Isso é bom, bonito, agradável, mas esses superlativos também podem ser muito contraditórios. Existe ou existiu um planejamento urbanístico adequado? Ou houve apenas aquela convivência que buscávamos ser mais agradável, que se transforma em tormento. O cotidiano será certamente benéfico, se os problemas de transporte, mobilidade, segurança acima de tudo forem antecipadamente previstos. O viver social deve proporcionar tranquilidade e trato afável. As questões de liberdade, independência, não ficam única e exclusivamente na dependência de aspectos ideológicos e ou filosóficos, mas estas realmente também se concretizam na convivência do deslocar-se, aceitar o dia a dia como o desejamos. Ou o ser prisioneiro do trânsito não de forma esporádica, mas diuturnamente e que nos transforma. O viver rural, talvez fosse melhor do que um aglomerado de desconhecidos - nos quais muitas vezes não podemos confiar. Voltando-se para determinados períodos históricos, observamos alguns detalhes bastante semelhantes. Imaginemo-nos em um burgo medieval - para segurança de seus habitantes, erigiram-se muralhas, para defesa, não somente dos inimigos aguerridos, mas também de parcelas indesejáveis da plebe. Depois devido ao desenvolvimento de condições técnicas, as muralhas demonstraram sua ineficácia e o povo, constituído por seus trabalhadores e senhores, acreditavam que a convivência poderia ser pacífica e acomodada. Os povoados crescem de forma desmesurada e alguns administradores, resolvem que a melhor forma de os coordenar é transformando a urbe em zoneamentos. Assim surgem áreas residenciais, industriais, comerciais... As fábricas com suas vilas operárias foram incorporadas, trazendo para alguns certos benefícios e para outros causando sustos. Resolvemos e adotamos para as grandes cidades, medidas semelhantes àquelas que anteriormente nos referimos. Deixamos os pobres, que não mais são pobres, são favelados, do lado de fora e construímos, não muralhas, mas à sua semelhança os chamados condomínios - sensação de segurança, tranquilidade, mas e a liberdade? O apelo econômico, entretanto, é sempre mais forte e a busca talvez de prestígio político juntamente com a ganância - esquecem-se de que o raciocínio deve ser sempre pautado pelo planejamento. Instalam-se prédios sem a previsão do transporte, resultando nos inegáveis congestionamentos, que a tudo engessam. Para as favelas, estas mantem uma existência cada vez mais hedionda - inegavelmente não há como não permitir sua existência, mas se não obrigarem necessariamente a existência de acesso, ruas, avenidas, etc., a vida desses coitados, não vai dispo r de um processo de escolha. Pois a acessibilidade, facilita a presença de nossas autoridades de segurança, ficando assim seus moradores, um pouco mais livres da presença da ação de meliantes de toda a natureza. Voltamos ao debate, o crescimento exponencial de nossas cidades, segue um rumo bem previsível, pois também é ao entorno de ramificações ou unidades de sistemas que permitem o transporte, que é perceptível na transformação das cidades em metrópoles e destas agora rumo a Megalópoles. Ao curioso que a estas parcas linhas se dedicarem, poderá perceber a inclusão da nossa Sorocaba, nos dados que de início citamos, a história está nos informando sobre o nosso futuro. Verifiquemos, primeiro os elementos mais próximos e de identidade originária, a conurbação entre Sorocaba e Votorantim, depois nossas ligações rodoviárias com outras Metrópoles. São Paulo, o crescimento acelerado de uma em direção a outra - a poucos anos trafegávamos pela rodovia Castelo Branco e só víamos a floresta. Hoje principalmente no viajar noturno, percebe-se a quantidade de luzes no meio dessas matas, indicativo da presença humana em um assustador crescente. Em direção a Campinas, Viracopos que era a alguns anos praticamente uma ilha, está praticamente emendado a Indaiatuba - Salto conurbado com Itu sendo que esse último avança também em direção a Jundiaí. A pacata Porto Feliz, hoje modifica-se atraindo capitais financeiros mais do que as demais áreas circunvizinhas. Campinas que dispunha já de crescimento acelerado, amplia seu ritmo. São corredores urbanos que contornam a Capital e da mesma forma o vale do Paraíba com São José dos Campos. A busca de um novo corredor para exportações, uma vez que a ligação na direção portuária de Santos está saturada. São Sebastião aparece como o candidato único para a demanda importadora e exportadora. Percebe-se com isso uma nova configuração em torno de São Paulo, embora sem demérito desta. Isso significa novas buscas e desenvolvimento de novas áreas contíguas. O fomento se por um lado é benéfico, por outro se não for projetado com base no passado e visão futurística, pode se tornar maléfico. Temos, pois, absoluta necessidade de repensar a ocupação urbana, dando a ela destinos nobres e revitalizarmos áreas hoje abandonadas. A urbe é nossa casa e não prisão, precisamos nos abrir para a imensidão de possibilidades, já que a Megalópole surge de forma inevitável. A projeção de novas áreas para a cultura, lazer e atividades de relacionamento, não são agora apenas desejáveis, mas obrigatórias... Tudo depende de nós, não do indivíduo solitário, mas das instituições que projetam e exigem para eles e seus descendentes uma qualidade de vida. A Megalópole virá, pois ela já é pelo menos em teoria uma realidade irreversível, mas ainda existe tempo para adaptar aquilo que desejamos.
Adilson Cezar é acadêmico emérito da Academia Sorocabana de Letras; presidente do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba; e membro do Conselho Superior da GIA União Cultural.