JK: 50 anos de ausência
Os anos de seu mandato (1956-1961) coincidiram com um período de extraordinária efervescência e transformação nacional
Em agosto de 2026, o Brasil completou meio século sem a presença física de Juscelino Kubitschek de Oliveira. O transcurso de cinco décadas desde a trágica tarde na rodovia Presidente Dutra não apenas convoca a memória de um dos mandatários mais emblemáticos do País, mas suscita uma reflexão inevitável sobre o significado profundo de sua falta na história nacional. Pensar em "50 anos de ausência" carrega um duplo sentido: assinala a vacância do homem público de tom conciliador e traduz a saudade do otimismo estruturado que marcou sua travessia pela Presidência da República. Juscelino não legou apenas uma capital fincada no Planalto Central; deixou o testemunho de uma fé inabalável na capacidade do Brasil de projetar e construir o próprio destino.
Compreender o estadista exige lançar luz sobre o homem. A elegância no vestir, a simpatia cativante e o sorriso largo que se tornaram marcas registradas de JK não eram meros adereços de marketing político, mas a tradução de um apurado senso de disciplina pessoal e refinamento. Nascido em Diamantina e órfão de pai ainda na infância, Juscelino conheceu os limites da modéstia material antes de consolidar sua vocação. Formado em Medicina, exercera a cirurgia com o mesmo rigor, atenção aos detalhes e serenidade que mais tarde transportaria para a vida pública. Da prática clínica, trouxe a sensibilidade para escutar o outro e a habilidade diagnóstica de agir sob pressão sem perder o equilíbrio moral.
Essa postura pessoal refletiu-se diretamente no espírito de seu tempo. Os anos de seu mandato (1956-1961) coincidiram com um período de extraordinária efervescência e transformação nacional. O Brasil vivia uma transição acelerada do mundo rural para o urbano, embalado por um sentimento coletivo de autoconfiança sem precedentes. A era JK foi a época em que o País conquistou sua primeira Copa do Mundo, viu erguerem-se as linhas arrojadas da arquitetura de Oscar Niemeyer e assistiu ao nascimento da Bossa Nova, cuja cadência moderna traduzia em som a estética de uma nação que se descobria cosmopolita.
O plano de metas e o célebre bordão "50 anos em 5" ultrapassaram a condição de mero programa econômico para se constituírem como uma verdadeira inflexão na mentalidade coletiva. Ao impulsionar a industrialização, integrar o território por meio de rodovias e transferir o centro político para o interior, o governo JK ousou pensar o país em escala monumental. A edificação de Brasília, erguida em tempo recorde no cerrado, não representou um ato de voluntarismo estético, mas a afirmação geopolítica de um Brasil que recusava a periferia do mundo e decidia voltar-se para o seu próprio povo e a vastidão de suas riquezas interiores.
Contudo, a grandeza do projeto desenvolvimentista não teria prosperado sem a envergadura ética e política do seu condutor. Em um período atravessado por intensas tensões ideológicas e tentativas de desestabilização, Juscelino destacou-se pela permanente disposição ao diálogo. Governou sob o signo da tolerância, garantindo a plena vigência das liberdades democráticas e o respeito às instituições, mesmo diante das mais severas oposições. Sua atuação revelou que a audácia das grandes transformações materiais exige, como premissa inegociável, a maturidade da convivência pacífica e a superação do ressentimento sócio-político.
A intimidade de sua trajetória revela um homem habitado por uma inquietude produtiva e uma inabalável elegância moral. Mesmo nos momentos de adversidade e no posterior isolamento político impostos pelo exílio e pela cassação, Juscelino manteve a dignidade e a recusa ao rancor, preservando a serenidade dos espíritos vocacionados para a grandeza.
Cinco décadas após o seu encantamento, a ausência de JK interpela o presente. O Brasil contemporâneo, por vezes aprisionado no imediatismo das disputas conjunturais e no déficit de grandes visões de futuro, ressente-se daquela postura capaz de conjugar civilidade, preparo intelectual e ousadia. Lembrar Juscelino 50 anos depois não significa cultivar uma nostalgia estéril pelo passado, mas resgatar o imperativo de um projeto nacional de longo prazo. Que a memória do Presidente Bossa Nova sirva de bússola para que o País reencontre a coragem de sonhar grande e a capacidade de realizar, em reconhecimento à sua história, o seu próprio futuro.
Herman da Costa Oliveira é psicólogo e professor universitário, membro efetivo e secretário da Academia Sorocabana de Letras (ASL), do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba (IHGGS), do Instituto Cultural
José Aleixo Irmão (ICJAI) e
Conselheiro da GIA-União Cultural.