A economia e o voto
Esse sentimento de frustração pode explicar por que as pesquisas de opinião seguem apontando forte desaprovação da atuação do atual governo
Pelo menos desde 1992, quando Bill Clinton arrebatou a presidência dos Estados Unidos sob o slogan "É a economia, estúpido!", sabe-se que a situação da economia conta muito para o resultado das eleições.
É também o que se pergunta agora, especialmente depois que o presidente Lula distribuiu R$ 250 bilhões em bondades eleitoreiras.
Ao longo da campanha, o presidente Lula vem insistindo em que a vida melhorou para a população, principalmente para as camadas mais pobres: É a queda do desemprego; é o salário mínimo reajustado acima da inflação; custo de vida sob controle; atividade econômica com certo avanço; distribuição de subsídios para segurar a alta dos combustíveis; fim das filas no INSS; o bom funcionamento do SUS; e têm as bondades já mencionadas, inclusive o reajuste de 15% do Bolsa Família, decretado duas semanas antes das eleições.
Mas não é exatamente essa a sensação do consumidor. Ele se queixa de que as despesas de feira e supermercado crescem mais depressa do que o salário; encontra, sim, mais emprego por aí, mas a alta rotatividade do mercado de trabalho também vem reduzindo o salário; queixa-se de que tem de trabalhar mais para ganhar a mesma coisa; de que as dívidas, que alcançam 80% das famílias, reduzem seu poder de compra; de que tem de morar cada vez mais longe para que o aluguel caiba no seu salário; e de que precisa aguardar até mais de três meses para, enfim, conseguir uma consulta no SUS.
O Pix, que é uma iniciativa de sucesso, aumentou a bancarização, ou seja, aumentou o acesso a uma conta bancária. Mas a bancarização criou novos sufocos. Com ela, veio a pressão dos bancos e das fintechs para a tomada quase compulsiva de empréstimos; veio a farta distribuição de cartões de crédito que atirou à inadimplência a população que teve pouco acesso à educação financeira; que as apostas nas bets, irrigadas por propaganda insistente e irresponsável, em vez de ajudar a pagar as dívidas, enredaram ainda mais o consumidor no negativo; que o governo nada faz para combater os roubos de celular e as tentativas de fraudes de todo tipo feitas por aplicativos... e por aí vai.
E há também a frustração geral com a diferença do padrão de vida dos maiorais de Brasília, que se refestelam na corrupção, nos privilégios e nos penduricalhos, tudo pago pelo contribuinte, enquanto a população segue se arrastando, sem certeza do amanhã.
Esse sentimento de frustração pode explicar por que as pesquisas de opinião seguem apontando forte desaprovação da atuação do atual governo.
O que não está nem um pouco claro é quanto desse estado de espírito pode influenciar o voto nas próximas eleições. Nessas horas, o que mais os políticos tentam vender é a esperança de dias radiantes. Mas nenhum passa firmeza de que a vida no próximo governo vai melhorar.
Celso Ming é jornalista e comentarista de economia.