Santa Rosália
Carrego Antonio no nome pois sim é uma homenagem que minha mãe prestou a Santo Antonio. Mesmo com tamanha devoção, eu nunca prestei à santidade. Quando fui dar de nascer na cidade, morei na rua Aparecida, em frente da padaria. Deu uns anos e nos mudamos para uma casa maior em Santa Rosália, na Bráulio Guedes.
E tudo mudou. Inclusive um vizinho que se chamava Braulio com um filho caçula de mesmo nome. Santa coincidência. A nova residência, uma casa maior, sobrado, uma rua sem trânsito, um terreno ao lado e plantamos um pomar, tinha um campinho de futebol na esquina, e a possibilidade com liberdade para descer a avenida Roberto Simonsem de bicicleta, de carrinho de rolimã e, com o rolar do tempo, os anos 70 trouxeram da gringa os skates.
A Esportiva vendia as rodas, os eixos, os rolamentos, o shape podia ser comprado do primo do Cesinha. Depois de muito uso, eu copiava o modelo e fazia clones na madeireira do avô do Peixe, marcineiro de muito zêlo. A deliciosa descida da Roberto Simonsem dava na praça Pio XI, onde tinha a Santa Igreja que o filho construiu em homenagem à devota mãe e sua profícua condição financeira, o bar do Edu, a casa dos Sanches que viriam a ser amigos da minha família, as casas grandes, as pequenas e modestas, muitos terrenos baldios entre aquela e esta.
Ao que se conta, as casas primeiras foram feitas para os trabalhadores da Companhia Nacional de Estamparia, com estreita relação de parentesco e propriedade ao nome da avenida com corta Santa Rosália de ponta à ponta. É o primeiro bairro para quem chega pela Castelinho, entrando na marginal sentido centro. Para mim era o bairro mais legal do mundo. Fizesse chuva ou fizesse sol. Fazia muito mais sol do que chovia, exceto aquele ano em que o rio Sorocaba transbordou de tanta altura que a profundidade generosa permitiu que Raquinha andasse com seu barco a motor em plena marginal. Dizem que ele chegou a esquiar. Eu não ví, mas não duvido.
Bem menos ousado era meu tio, filho primogênito do avô Guido. Aguerrido, nas manhãs de domingo passava em minha casa, me colocava na garupa da sua Honda CB 360 dourada e passávamos devagar a vagar pelo Quartel, pelo Senai, pela Pio XI, pela São Francisco, pela fábrica, pela Alameda Kenworth da pipoca doce do japonês. O som da moto, o cheiro do ar fresco, o vento no rosto eram de uma santidade abençoada para meus sentidos. Santas manhãs de domingo. Já às tardes dominicais, a parte mais plana da Pereira da Silva era um anda e para só, gente apinhada nas calçadas dos dois lados, carangas e motocas servindo de apoio para pessoas calçando seus melhores pares de pisantes em um cortejo desfilatório sem muita utilidade, além do desfile em si e do cortejar das moças e rapazes. Quem tinha apreço pelo programa o chamava de footing, fora esses, a alcunha talhada era bobódromo.
Bobo mesmo é quem não aproveitou os ensaios da Unidos de Santa, que teve integrantes bem unidos em sua brevíssima vida carnavalesca, em frente ao CIC, que se mantém vivo até hoje. Só sei que Santa Rosália era Santa e santo bairro, porto seguro, um mundo, um pequeno pedaço da terra rasgada, o melhor pedaço, meu amado solo. A quem rasgo elogios sempre que posso. Hoje eu pude. Te amo Santa Rosália.
Rui Gianolla é consultor de marketing e comunicação.