70x7: a matemática do perdão
Desde que me conheço por gente tenho problema com números. Lembro-me de uma aula de matemática num cursinho pré-vestibular. Depois de vários minutos resolvendo um problema na lousa, o professor chegou ao resultado e perguntou: "Simples assim, entenderam?". Quase todos acenaram positivamente com a cabeça. Eu também tive vontade. O problema é que não havia entendido absolutamente nada.
Algumas contas são mais difíceis do que parecem. Pedro descobriu isso quando perguntou a Jesus: "Senhor, quantas vezes deverei perdoar a meu irmão quando ele pecar contra mim? Até sete vezes?" (Mateus 18:21). A pergunta envolvia números, mas o problema não era exatamente matemático. Pedro queria encontrar um limite para poder dizer: "Chega. Já perdoei o suficiente".
Sua proposta parecia generosa. Sete vezes. Jesus, porém, respondeu: "Não até sete, mas até setenta vezes sete" (Mateus 18:22).
Talvez uma das razões pelas quais tenhamos tanta dificuldade de perdoar esteja justamente no hábito de fazer contas. Somamos as ofensas, subtraímos os desafetos, dividimos a paciência e, às vezes, multiplicamos o ódio.
Para responder a Pedro, Jesus contou a história de um rei que resolveu acertar as contas com seus servos. Um deles lhe devia dez mil talentos, uma dívida absurda. Incapaz de pagar, pediu paciência. Movido por compaixão, o rei fez muito mais: cancelou toda a dívida.
Pouco depois, aquele homem encontrou um companheiro que lhe devia cem denários. Agarrou-o pelo pescoço e exigiu o pagamento. O companheiro fez praticamente o mesmo pedido que ele havia feito ao rei. Dessa vez, porém, não houve compaixão.
Há uma estranha matemática nessa história. O perdão começa por uma subtração, mas não a da memória, da dor ou da justiça. Perdoar não é fingir que nada aconteceu. Há situações que exigem confronto, limites e consequências. O que precisa ser subtraído é a vingança, essa pretensão de fazer pessoalmente o outro pagar pelo que fez.
O ressentimento produz uma curiosa sensação de controle. Enquanto mantenho a dívida aberta, parece que ainda tenho alguma coisa nas mãos. O problema é que, enquanto seguramos o outro pelo pescoço, continuamos presos a ele.
Há também uma divisão necessária: a da nossa hipocrisia. Quando era devedor, o servo queria misericórdia; quando se tornou credor, exigiu justiça. Fazemos algo parecido. Para nossos próprios erros, quase sempre encontramos contexto: cansaço, pressão, problemas, um dia difícil. Para o erro do outro, muitas vezes sobra apenas a culpa. Quando falhamos, procuramos contexto; quando o outro falha, procuramos culpa.
Talvez o problema daquele homem não fosse apenas sua crueldade, mas seu esquecimento. Ele havia se esquecido de que também era um devedor.
O perdão exige ainda uma adição. Não a adição de novas cobranças, mas de uma realidade que frequentemente desaparece quando somos feridos. A dívida de cem denários existia. Jesus não a nega. O que o servo não conseguiu enxergar foi outra realidade: momentos antes, ele próprio havia sido perdoado de uma dívida incomparavelmente maior.
Perdoar, portanto, não exige retirar a ofensa da nossa história, mas acrescentar à realidade da ofensa a realidade da graça. Há coisas que não podem ser desacontecidas. O que fizeram conosco faz parte da nossa história, mas não precisa continuar escrevendo sozinho os próximos capítulos.
Finalmente, existe uma multiplicação. "Você não devia ter tido misericórdia do seu conservo como eu tive de você?", pergunta o rei (Mateus 18:33). A graça recebida deveria ter continuado seu caminho. Talvez esteja aí uma das nossas maiores dificuldades: gostamos da graça quando ela vem em nossa direção; temos mais dificuldade quando ela deve passar por nós.
Nada disso torna pequenas as feridas. Algumas são profundas. Existem traições, abandonos e palavras que continuam doendo muitos anos depois. O perdão não nasce da descoberta de que a ofensa era menor do que imaginávamos, mas da possibilidade de que ela deixe de determinar aquilo que seremos daqui para frente.
É nesse ponto que a matemática da parábola encontra o coração do cristianismo. Na cruz, Deus não tratou o mal como irrelevante nem fingiu que a dívida humana não existia. Cristo a tomou sobre si. E a ressurreição acrescentou algo novo à história: a dívida não teria a última palavra.
Talvez por isso Jesus tenha respondido a Pedro com um número tão desconcertante. Setenta vezes sete não é uma fórmula para contabilizar o perdão. É justamente o contrário: é um convite para finalmente parar de contar.
Renato de Oliveira Camargo Junior, é teólogo formado pelo Seminário Presbiteriano do Sul, pós-graduado em Liderança pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em Ministério pelo Missional Trainning Center, diretor do Centro de Treinamento para Plantadores de Igrejas e pastor Plantador da Comunidade Presbiteriana Campolim, em Sorocaba.