O livro não é o inimigo da sustentabilidade

Por Cruzeiro do Sul

mERCADO EDITORIAL

Emília Ferreiro nos ensinou que a leitura é um direito. Não um luxo, não um privilégio, não uma concessão. Um direito que, justamente por isso, precisa estar ao alcance de todos e que está profundamente relacionado ao exercício da democracia. A leitura não pode ser reduzida ao prazer ou à recreação: ela é um direito histórico, cultural e político. Por isso me causou estranhamento assistir a uma autora de um dos livros mais lidos do País ir às redes sociais para pedir aos leitores que parem de comprar sua obra. O argumento apresentado foi o da sustentabilidade: já existiriam muitos exemplares circulando e, portanto, seria melhor recorrer a bibliotecas, familiares, colegas e amigos para fazer esses livros circularem.

A intenção pode até ser generosa e a preocupação ambiental pode ser legítima, mas uma boa intenção não transforma automaticamente uma ideia em uma boa política de sustentabilidade. O primeiro problema está em tratar o livro como se ele fosse apenas um objeto de consumo. Não é. Um livro é resultado de uma cadeia produtiva complexa, que envolve escritores, tradutores, revisores, editores, diagramadores, ilustradores, artistas, designers, profissionais de comunicação, gráficas, fabricantes de papel, distribuidores, transportadores, livreiros e tantos outros trabalhadores.

Segundo dados divulgados pela Câmara Brasileira do Livro, o setor editorial e livreiro brasileiro gera cerca de 70 mil empregos diretos e reúne mais de 54 mil empresas e estabelecimentos em sua cadeia produtiva. Comprar um livro, portanto, não significa simplesmente entregar dinheiro a quem o escreveu. Aliás, é justamente aí que outro equívoco precisa ser corrigido. A ideia de que o autor fica com uma parcela expressiva do valor de cada exemplar vendido não corresponde ao funcionamento tradicional do mercado editorial.

Os direitos autorais costumam girar entre 5% e 10% do preço de capa. E, claro, essa porcentagem não pode ser confundida com "lucro": trata-se da remuneração pelos direitos autorais. Por isso, dizer às pessoas que deixem de comprar livros não é uma ação ambientalmente neutra. Pode significar, também, desencorajar uma cadeia econômica formada majoritariamente por trabalhadores que precisam vender o que produzem. Há uma questão ainda mais importante: sustentabilidade não pode ser reduzida à pergunta "devemos consumir ou não consumir determinado produto?".

Sustentabilidade exige que perguntemos como, quanto e para quem produzimos, com quais materiais, sob quais condições de trabalho, como distribuímos, como reutilizamos e como descartamos. O livro tem sim, uma dimensão ambiental. Papel é matéria-prima, a produção envolve energia, há impressão, transporte e outros impactos. A própria cadeia editorial já discute caminhos para reduzir esses impactos, como uso de papel certificado, redução de resíduos, economia circular, eficiência energética, redução de emissões e mudanças nos processos de produção e logística.

Se uma pessoa compra um livro, lê, empresta, doa, leva para uma biblioteca, deixa para outra pessoa, guarda para uma criança que ainda vai nascer ou simplesmente o relê dez anos depois, estamos diante de um objeto que possui uma vida útil muito diferente daquela de tantos produtos de rápido consumo e descarte. Basta comparar a longevidade de um livro a de uma caixinha que embala um lanche no fast food. Há algo de profundamente contraditório em discutir a quantidade de livros impressos como se esse fosse um dilema ambiental, enquanto se continua produzindo e descartando objetos de toda sorte em escala gigantesca.

Não precisamos de menos livros. Precisamos de menos desperdício. E precisamos, sobretudo, de mais leitores. Precisamos de acesso gratuito e de uma cadeia produtiva capaz de remunerar de forma justa aqueles que trabalham para que um livro exista. E talvez seja justamente aqui que esteja o ponto mais delicado dessa discussão. A leitura não pode ser tratada apenas como entretenimento. Ler não é simplesmente uma forma sofisticada de passar o tempo. Ler é construir repertório, elaborar pensamento, confrontar ideias, olhar para dentro, nomear o inominável, interpretar criticamente a realidade. A leitura é uma prática social e política. Negar essa dimensão é retirar da pauta uma das mais importantes ferramentas de transformação humana. Porque uma sociedade que lê não está apenas consumindo cultura. Está construindo instrumentos para pensar sobre si mesma. E talvez seja por isso que Silvia Castrillón tenha formulado uma ideia que deveria estar no centro de qualquer discussão sobre políticas de leitura: "Ter acesso à leitura não garante de maneira absoluta a democracia, mas não tê-lo definitivamente a impede ou, pelo menos, a retarda."

Vanessa Marconato Negrão, professora, ambientalista e sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras