Getsêmani: do monólogo da alma à prática da oração
Ao contrário do que muita gente imagina, a oração não consiste na prática de querer informar Deus sobre aquilo que Ele desconhece, nem em convencê-lo a realizar os nossos planos
Em seu livro A voz em sua cabeça, o psicólogo Ethan Kross observa que todos nós mantemos uma conversa permanente conosco mesmo. Trata-se do hábito de revisitar os acontecimentos do dia a dia, reviver os fracassos do passado e antecipar o futuro. Esse diálogo não é necessariamente ruim, mas quando dominado pelo medo, pela culpa ou pela ansiedade, pode tornar-se altamente tóxico.
Talvez seja justamente aí que resida uma das maiores fragilidades da espiritualidade contemporânea. Ela nos ensina a administrar agendas, desenvolver competências, lidar com os nossos sentimentos, mas nada muito além disso. Consequentemente, o diálogo da alma tem se transformado num monólogo solitário, e o autocuidado num peso enorme sobre os nossos ombros. A saída para isto não está em permanecermos presos ao nosso mundo interior, mas em transcendermos a ele.
Ao conversarmos com os nossos familiares em volta da mesa, fortalecemos o nosso senso de pertencimento. Dialogando com bons amigos sobre aquilo que nos alegra e nos entristece, experimentamos um alívio importante. Compartilhando nossas crises com terapeutas, aprendemos a enxergar as coisas a partir de novas perspectivas.
Tudo isso é muito bom. Mas ainda não é suficiente. Segundo Blase Pascal, há no coração de todos nós um abismo infinito que só pode ser preenchido por um objeto infinito e imutável, ou seja, pelo próprio Deus. Se ele está certo, somente o diálogo com Deus é que pode produzir a plenitude e a satisfação que tanto almejamos.
É justamente isso que encontramos no emblemático episódio ocorrido há dois mil anos num bucólico jardim chamado Getsêmani, onde Jesus orou, dizendo: "Meu Pai..." (Marcos 14:36). À primeira vista, essa expressão pode parecer apenas uma forma de tratamento. No entanto, ela revela o fundamento de toda oração. A palavra aramaica Aba era utilizada no ambiente familiar para dirigir-se ao pai e expressava profunda intimidade, confiança e afeto. Ao preservá-la em seu Evangelho, Marcos nos lembra que, antes de apresentar sua dor, Jesus reafirma seu relacionamento com o Pai, há poucas horas da cruz.
Jesus seguiu dizendo: "...se for possível, afasta de mim este cálice." (Marcos 14:36). Com essas palavras, deixa claro que diante do Deus Pai não precisamos fingir que tudo está bem. Podemos nos abrir com sinceridade sem o receio de sermos rejeitados ou repreendidos. Foi Ele quem nos fez, conhece muito bem a nossa constituição e os limites inerentes à nossa humanidade. Como é bom saber que n'Ele encontramos esse nível de acolhimento.
Jesus concluiu sua oração, dizendo: "contudo, seja feita a tua vontade". (Marcos 14:36). Dessa forma, Jesus nos ensina que, tão importante quanto colocar os nossos planos diante do Senhor, é nos submetermos confiantemente à vontade d'Ele, que segundo o apóstolo Paulo, é boa, perfeita e agradável (Romanos 12:2). Essa submissão se concretiza, dentre outras coisas, através da disposição de seguirmos em frente mesmo quando as coisas não funcionam da forma como gostaríamos.
Ao contrário do que muita gente imagina, a oração não consiste na prática de querer informar Deus sobre aquilo que Ele desconhece, nem em convencê-lo a realizar os nossos planos. Antes, constitui o privilégio de transformar o monólogo da alma em um diálogo com o Pai - a fonte de toda a vida, aquele que ama e cuida como ninguém.
Da próxima vez que sua mente começar a revisitar os fracassos do passado ou antecipar os problemas do futuro, antes de continuar conversando apenas consigo mesmo, faça o que Jesus fez: entre em oração. Talvez Deus não afaste imediatamente o cálice que você tanto teme, mas certamente lhe dará a graça necessária para enfrentá-lo.
Renato de Oliveira Camargo Junior é teólogo formado pelo Seminário Presbiteriano do Sul e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, pós-graduado em Liderança pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em Ministério pelo Missional Training Center, professor de Homilética e Prática da Pregação no Seminário Presbiteriano do Sul e pastor plantador da Comunidade Presbiteriana Campolim, em Sorocaba.