A Primavera dos Povos e os efeitos urbanos
A Primavera dos Povos foi a ocorrência de várias revoluções populares que varreram a Europa em 1848, fundadas nos ideais liberais, nacionalistas e socialistas, inspirados nos ideais da Revolução Francesa e combateram o Absolutismo, a monarquia e a aristocracia, restauradas pelo Congresso de Viena (1815). Dentre várias consequências, destacam-se a ascensão da burguesia e do liberalismo econômico, apoiadas pelo tripé da liberdade, igualdade e propriedade privada, procedentes da primeira Revolução Industrial (1760-1840).
Referida Primavera causou um corte na História, em que o capitalismo surgiu como economia de Estado e com "status" de ideologia dominante. Sob a força imperiosa do Estado, o capitalismo organizou a sociedade em relações desiguais e relacionou o poder com a construção de diferentes espaços urbanos, públicos e privados, respectivamente preenchidos pelo poder público e pela família. Estes se contrapõem, mas se interrelacionam enquanto lugares e práticas (hábitos, costumes e regras) da sociedade capitalista.
Na construção daqueles espaços, suas subdivisões (repartição pública, casa, espaço mínimo e conforto) contribuíram para distingui-los enquanto tais. Quanto ao conforto, mensurou a eficácia das dimensões dos espaços e equipamentos existentes, com vistas ao bem-estar de todos. Redes e fluxos articularam o espaço urbano com conexões oriundas de centralidades específicas (estações ferroviárias, por exemplo). Ambas definiram caminhos, rotas ou percursos quantificados pelo tempo e concorreram à mobilidade nas cidades.
No século XIX as ferrovias, gares, relógios, hotéis e restaurantes dinamizaram (numa articulação ordenada) a sociedade burguesa e separaram a cidade do campo. As cidades foram regidas pelas redes e fluxos, mensuradas pelo tempo de deslocamento entre as origens e os destinos. As reformas urbanas, idem, na oportunidade dos projetos e na conveniência das vias públicas a serem implantadas.
Os espaços públicos e privados podiam ser separados ou integrados pelos fluxos de circulação e concentração de pessoas, anônimas ou não. Eram dinâmicas que ocorriam nas cidades pela mobilidade nelas existente. Cidades e ferrovias exteriorizavam o sucesso da sociedade capitalista e seus valores (liberdade, democracia e família), procedentes da cultura europeia, berço do capitalismo.
Conclusivamente, a Primavera dos Povos fez um corte histórico, no qual introduziu o capitalismo na economia e na ideologia do Estado, que o utilizou para definir as sociedades pelas classes sociais (relações desiguais) e as cidades pelas práticas sociais e espaços públicos e privados. Junto delas surgiram as redes e fluxos que mensuraram o tempo de percurso e a mobilidade urbana (representados pelas pessoas e ferrovias), apoiados pelos valores do capitalismo. Por fim, a Primavera dos Povos apresentou às cidades o mundo capitalista. Nada a mais.
Marcelo Augusto Paiva Pereira é arquiteto e urbanista.