A panela de pressão humana precisa de conserto
No mesmo dia em que um amigo me contou que a panela de pressão de sua casa explodiu, causando prejuízos na cozinha e colocando sua família em risco, li na imprensa a notícia de um morador de condomínio que também "explodiu", mas de agressividade, ao discutir com outro por causa de uma vaga de estacionamento.
Pensei imediatamente: a panela de pressão seria o tema do meu próximo artigo.
Primeiro, como um alerta às pessoas que utilizam esse utensílio doméstico presente na maioria dos lares brasileiros. Quando bem conservada e utilizada corretamente, a panela de pressão é um equipamento seguro. O problema surge quando a manutenção preventiva é negligenciada.
Reportagens e levantamentos divulgados pela imprensa apontam que, todos os anos, cerca de 1.200 panelas de pressão explodem no Brasil, provocando queimaduras, ferimentos e grandes prejuízos materiais às famílias. A maioria desses acidentes poderia ser evitada com cuidados simples.
As causas mais frequentes são o entupimento das válvulas por resíduos de alimentos, o desgaste da borracha de vedação, o excesso de alimentos ou de espuma durante o cozimento, além da falta de limpeza periódica e do uso de panelas com componentes danificados. Quando o vapor não consegue escapar pelos mecanismos de segurança, a pressão interna aumenta perigosamente, podendo provocar a explosão do equipamento.
Mas não foi apenas a panela da cozinha que despertou minha atenção. Pensei também na "panela de pressão psicológica" em que muitos seres humanos têm transformado a própria vida.
A cada dia somos surpreendidos por notícias de brigas no trânsito, discussões entre vizinhos, conflitos familiares, desentendimentos no ambiente de trabalho ou agressões motivadas pelas mais banais situações como mensagens em redes sociais. Pequenas contrariedades acabam se transformando em violência, ofensas e muitas vezes com consequências irreversíveis.
Vivemos em uma sociedade onde a panela emocional parece estar permanentemente sob pressão. Ela vai sendo preenchida por ódio, rancor, mágoas, intolerância, vaidade, orgulho e pela crescente dificuldade de aceitar limites e conviver com as diferenças.
Um simples risco na pintura de um carro, um veículo estacionado fora da faixa, uma fechada no trânsito, uma discussão entre crianças na escola ou uma divergência de opiniões podem entupir a válvula da paciência. Em vez do diálogo, surgem os gritos. Em vez da serenidade, a explosão.
Enquanto a panela de pressão da cozinha pode ser preservada com limpeza, manutenção e substituição de peças desgastadas, a panela da mente humana também precisa de cuidados permanentes. Ela necessita de momentos de silêncio, reflexão, diálogo, perdão, oração e, quando necessário, do auxílio de profissionais da saúde mental.
Infelizmente, muitas pessoas ignoram esses sinais. A pressão aumenta até que a agressividade explode em palavras, gestos ou violência física, utilizando o que estiver ao alcance das mãos. O resultado, não raramente, são famílias destruídas, amizades rompidas, processos judiciais e vidas perdidas por motivos que jamais justificariam tamanho descontrole.
Buscando uma mensagem de esperança para concluir esta reflexão, encontrei nas palavras de Jesus um ensinamento que ultrapassa religiões e alcança qualquer pessoa de boa vontade:
"Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para as vossas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve." (Mateus 11,28-30)
Essas palavras nos recordam que o maior peso nem sempre é físico. Muitas vezes ele é emocional. E esse peso torna-se mais leve quando permitimos que o amor, a mansidão, a humildade e o perdão orientem nossas atitudes.
Antes que a panela de pressão da alma exploda, talvez seja hora de desligar o fogo da impetuosidade, abrir espaço para o diálogo, limpar as válvulas da intolerância e deixar que o silêncio dos sábios resfrie as emoções.
A manutenção da panela da cozinha evita acidentes. A manutenção do coração evita tragédias.
Essa talvez seja uma das lições mais atuais dos ensinamentos de Jesus, transmitidos há mais de dois mil anos e que continuam indispensáveis para a convivência humana neste século 21.
Vanderlei Testa é jornalista e escritor.