Um Brasil espanhol e um mito persistente
Esse desejo tem outros ecos, desta vez na República brasileira, séculos mais tarde, no conhecido episódio de Canudos
Um Brasil Espanhol e um mito persistente
Louco, sim, louco, porque quis grandeza
qual a Sorte não dá.
Não coube em mim minha
certeza;
por isso onde o areal está
ficou meu ser que houve, não o que há.
(Fernando Pessoa)
No belíssimo Mosteiro dos Jerônimos, no bairro de Belém, Lisboa, há, na nave principal, o túmulo de um rei de Portugal. Sustentado por grandes esculturas de elefantes, uma referência estética à África, é motivo de controvérsia até os dias de hoje. Quem está ali enterrado?
Muito provavelmente, Dom Sebastião. Motivado por seu fervor religioso, Dom Sebastião recriou uma Cruzada, expedição militar contra os árabes islâmicos, desta vez não no Oriente Médio, mas no Norte da África, no atual território do Marrocos. Sua morte ocorreu na batalha de Alcácer Quibir, em 1578, mas naquele momento, em meio aos conflitos militares, seu corpo não foi recolhido pelas tropas portuguesas. Com os sobreviventes de volta para casa, derrotados, o corpo do rei morto ficou no deserto: por isso onde o areal está / ficou meu ser que houve, como indica o poema de Fernando Pessoa.
Seu ser que houve, sua existência física, desapareceu. Mas o ser que há, o que permanece, não é o físico, mas o simbólico, o mito, a lenda. Por sua Loucura, diz o poeta. Loucura com grandeza. Mas o destino, a Sorte, em maiúscula alegorizante, não permite aos homens, mesmo aos mais poderosos reis, que tal loucura grandiosa se torne realidade.
De fato, recriar o movimento das Cruzadas era uma loucura. Em pleno século XVI, isso significava um retrocesso de quase dois séculos, pois as Cruzadas foram um movimento tipicamente medieval. Para piorar essa loucura, a morte de Dom Sebastião também teve consequências políticas dramáticas para Portugal. E para sua principal colônia, o Brasil. Aliás, seu curto e intenso reinado está muito ligado à nossa História.
Quando ele ainda era um jovem rei com meros 14 anos, uma de suas primeiras medidas foi o envio de tropas para expulsar os franceses que tinham criado uma colônia no Rio de Janeiro. Daí o nome da cidade, São Sebastião do Rio de Janeiro, em homenagem ao santo e ao rei.
Mas seu maior legado, no caso por sua ausência, foi a sucessão dinástica portuguesa. A mãe de D. Sebastião era chamada de Joana de Áustria, por ser da família Habsburgo, a mais poderosa dinastia europeia naquele momento, com interesses em vários reinos. E o irmão de Joana de Áustria era Filipe II, que assumiu o trono espanhol quando seu pai, Carlos I, morreu. Resumo rápido: D. Filipe II, o rei da Espanha, era tio direto de D. Sebastião de Portugal, que morreu no norte da África sem deixar herdeiros.
Isso significa que Portugal passa a ser uma parte do Império Espanhol da dinastia Habsburgo, cujo poderoso monarca era Filipe II: "no meu império, o sol nunca se põe". Suas possessões incluíam a América Espanhola e agora o Brasil, as colônias portuguesas da África e da Índia e os domínios na China, como Macau, e as Filipinas - estas sim, como já podemos intuir pelo nome, espanholas. Em horas atuais, mais de 17 fusos.
Todas as guerras da Espanha também passaram a incluir Portugal. Isso resultou em uma desastrada batalha naval contra a Inglaterra, que levou ao fundo do mar boa parte da frota portuguesa que defendia a costa brasileira. E Portugal herdou também a Guerra de Independência dos Países Baixos, que faziam parte do Império Habsburgo de Filipe II. Que situação delicada! Os Países Baixos, que eram aliados na complexa relação comercial do açúcar com Portugal, eram agora inimigos pela interferência da Espanha. Resultado: a invasão holandesa no Nordeste brasileiro, para apropriar-se da riqueza do açúcar financiada por eles próprios.
Para Portugal, o desastre foi tão grande que se criou o mito do sebastianismo: a volta triunfante do rei desaparecido no deserto, para salvar o país, e sua colônia, o Brasil, dos conflitos em que a Espanha o havia envolvido.
"Por isso onde o areal está / ficou meu ser que houve, não o que há". O ser que há é o seu mito, sua presença no mundo imaginário e simbólico, a volta ao passado idealizado antes da morte do rei. E, por citar esse episódio, a ausência do corpo só aumentou a lenda de que um dia ele voltaria do deserto. E ele voltou, pois, em 1582, seu esquife foi enviado pelo sultão do Marrocos e reenterrado no Mosteiro dos Jerônimos, onde permanece até hoje.
Ou não? Pois nunca houve um teste de DNA que confirmasse essa presença. Mas a lenda nesta altura já era forte demais. Mesmo com o desfile nas ruas de Lisboa do esquife real e as pompas do enterro na nave central da igreja, muitos portugueses continuavam a dizer: ele não morreu e voltará.
Esse desejo tem outros ecos, desta vez na República brasileira, séculos mais tarde, no conhecido episódio de Canudos, mas isso é assunto para outro texto, sobre este rei que se recusa a desaparecer.
Henrique Cavalcanti de Albuquerque, é professor e sócio efetivo da Academia Sorocabana de Letras