Tapa na cara
A verdadeira autoridade nasce do amor, da coerência e do testemunho diário, nunca da violência, do medo ou da humilhação
A edição do jornal Cruzeiro do Sul de 15 de julho de 2026 publicou uma pesquisa realizada pelo Instituto Futuro é Infância Saudável sobre a violência contra crianças no Brasil. Confesso que fiquei chocado e profundamente triste ao conhecer essa realidade.
Entre os 2.022 brasileiros entrevistados, 49% afirmaram já ter dado tapas nos filhos, enquanto 27% disseram ter utilizado objetos para agredi-los. São números que machucam a consciência de qualquer pessoa que acredita na infância como tempo de amor, proteção e aprendizado.
Ao ler esses dados, senti a dor de cada criança. Em minha família, nunca presenciei agressões físicas como forma de educar. Imagino que muitos leitores, neste momento, também estejam recordando a educação que receberam dos pais e dos avós. Houve diálogo? Houve acolhimento? A conversa foi usada para ensinar ou a violência ocupou o lugar do amor?
O Cruzeiro do Sul traz diariamente em sua capa a frase: "Cremos em Deus, na família e na educação." Também acredito profundamente nesse princípio. Esse tripé sustenta uma sociedade verdadeiramente humana. Somos seres racionais, capazes de pensar, dialogar, aprender e evoluir graças à inteligência que Deus nos concedeu.
Educar um filho é uma das maiores responsabilidades confiadas aos pais. Mais do que oferecer alimento, roupas e estudos, educar significa formar o caráter, ensinar valores, cultivar o respeito, a honestidade, a solidariedade e a capacidade de conviver em paz com as pessoas. A criança aprende muito mais pelo exemplo do que pelas palavras. Pais que dialogam, acolhem, orientam e corrigem com firmeza e amor constroem adultos emocionalmente mais seguros e preparados para enfrentar os desafios da vida.
A verdadeira autoridade nasce do amor, da coerência e do testemunho diário, nunca da violência, do medo ou da humilhação. Educação vai muito além da escola e da formação profissional. Ela começa no berço, quando os pais ensinam pelo exemplo, pelo carinho, pela paciência e pelo respeito
Recentemente, o próprio Cruzeiro do Sul repercutiu uma notícia que comoveu o País: um pai chutou o peito da própria filha, de apenas três anos de idade, em plena via pública, no Rio Grande do Sul, alegando que a criança chorava. Felizmente, uma pessoa presenciou a cena, denunciou o caso às autoridades, e o agressor está respondendo por seus atos. A omissão teria permitido que a violência continuasse.
Casos de agressão contra crianças, assim como denúncias de trabalho infantil e outras violações de direitos, podem ser comunicados pelo Disque 100, canal nacional de proteção dos direitos humanos. Denunciar é um ato de responsabilidade e de amor ao próximo.
Defender a infância é cuidar das sementes do futuro. É regá-las com afeto, respeito e educação, para que cresçam livres das marcas da violência, da intolerância e dos traumas provocados por adultos que descarregam nos filhos suas próprias frustrações e agressividades.
Estamos no século XXI e, ainda assim, continuamos sendo impactados por notícias que revelam a falta da mais básica das educações: aquela que ensina a respeitar a dignidade da criança.
Há mais de dois mil anos, Jesus deixou um ensinamento que permanece atual e necessário. No Evangelho de Mateus (19,14), Ele disse: "Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam, porque o Reino dos Céus pertence aos que são semelhantes a elas."
Talvez a verdadeira educação comece exatamente aí: enxergar cada criança como Jesus a enxergava — digna de amor, cuidado, respeito e proteção.
Vanderlei Testa é jornalista e escritor.