Sorocaba e a Revolução de 1932: O Legado de um Povo
Na primeira semana de julho, o Estado de São Paulo relembra um dos episódios mais vibrantes de sua história: a Revolução Constitucionalista de 1932. Descrita por historiadores como uma "Guerra Santa", a mobilização empolgou toda a população paulista, unindo homens, mulheres, idosos e crianças no ideal de ver o país retornar ao Estado de Direito. Contra visões que tentam reduzi-la a um movimento elitista, a história atesta seu caráter eminentemente legalista e popular. O próprio comandante-chefe das tropas getulistas, Góis Monteiro, reconheceu posteriormente que "São Paulo em peso participou direta ou indiretamente do movimento".
As causas desse conflito dividem-se entre remotas e imediatas, compondo "um só todo, um só drama em dois atos", iniciado com a ruptura institucional de 1930. Remotamente, o amor paulista à legalidade chocava-se com o regime discricionário federal. Imediatamente, o desprezo da ditadura para com São Paulo, governado por interventores que exauriram o Tesouro local, acendeu o estopim da revolta. O trágico 23 de maio, com o estouro de confrontos na Praça da República e a morte de jovens estudantes, deu origem à milícia civil MMDC, tornando o conflito armado inevitável.
Nesse cenário de beligerância, Sorocaba reviveu suas profundas tradições libertárias. A cidade transformou-se em um polo de apoio logístico e industrial. Na retaguarda, a cozinha da escola do Prof. Basilides de Godoy funcionava ininterruptamente à noite para alimentar soldados em trânsito. As senhoras Judith Rosa Tavares e Diva Amaral Sampaio lideraram a campanha do ouro, cujos doadores recebiam alianças de ferro abençoadas na Catedral pelo Monsenhor Domingos Magaldi. Até a molecada organizou um batalhão infantil que recebia instruções no pátio do Grupo Escolar "Antônio Padilha".
A força operária sorocabana destacou-se de forma extraordinária. Nas oficinas da Estrada de Ferro Sorocabana, os ferroviários montaram três trens blindados, revestidos de chapas de aço verdes e equipados com metralhadoras em torres giratórias. Para combater o desabastecimento de combustível, a empresa Matarazzo distribuiu o álcool-motor "Cruzeiro do Sul". Adicionalmente, o geólogo Luiz Flores Moraes Rego operou os fornos da Fábrica de Ferro de Ipanema para suprir as forças constitucionalistas. O entusiasmo era tanto que o prefeito Ernesto de Campos relatava que muitos voluntários simplesmente tomavam os trens de assalto e viajavam clandestinamente para o front.
Militarmente, porém, o movimento enfrentou sérias desvantagens. A quebra de colaboração pactuada com os gaúchos, por traição do interventor Flores da Cunha,
e a neutralidade de Minas Gerais deixaram São Paulo isolado e cercado. A escassez crítica de material bélico forçou o improviso, enquanto a inferioridade numérica de tropas de linha chegava a um soldado constitucionalista para cada cinco ou dez governistas. Diante do esgotamento, o armistício foi confirmado no início de outubro. Em 3 de outubro, o Dr. Ernesto de Campos exonerou-se do cargo de prefeito de Sorocaba com a consciência do dever cumprido.
Entre as trajetórias pessoais que conectam esse passado heroico à posteridade sorocabana, destaca-se a figura de José Aleixo Irmão. Na época um jovem acadêmico, ele vivenciou os combates na pele: voluntariou-se em Nuporanga, integrando a primeira leva do Batalhão Arquidiocesano que marchou para guarnecer a Serra da Mantiqueira, protegendo a rota estratégica entre São Luís do Paraitinga e Ubatuba. Sob o comando do Coronel Euclides Figueiredo, vigiou a passagem por quase três meses antes de enfrentar a forte ofensiva das tropas de Góis Monteiro em outubro, batendo em retirada sob intenso tiroteio até Taubaté. O registro fotográfico da época imortalizou essa jornada, mostrando-o fardado ao lado de seus companheiros de trincheira, posicionado como o último da esquerda para a direita.
Anos mais tarde, essa mesma têmpera idealista e o compromisso inabalável com as liberdades civis guiaram José Aleixo Irmão até a Terra Rasgada, onde foi um dos 21 instituidores da Fundação Ubaldino do Amaral (FUA). Sua transição de jovem soldado da legalidade nas trincheiras de 1932 para pilar institucional, jurídico e cultural de Sorocaba personifica o verdadeiro espírito da Revolução: a transformação do sacrifício militar em uma duradoura construção democrática e social em prol do bem comum.
Apesar da derrota nas trincheiras, 1932 representou uma retumbante vitória moral, que forçou a convocação da Assembleia Constituinte. Como escreveu o poeta Martins Fontes: "Ser Paulista... É ser traído e pelejar sozinho! É ser vencido, mas cair de pé!".
Carlos Pinto Neto, advogado, secretário da Academia Sorocabana de Letras, membro do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba (IHGGS), sócio do Gabinete de Leitura Sorocabano, presidente do Instituto Cultural "José Aleixo Irmão" (ICJAI) e diretor de relações institucionais da GIA — União Cultural.