O sono da razão produz monstros: O olhar de um cavalo em Goya
No Museu do Prado, localizado em uma das avenidas mais belas do mundo, em Madri, há uma ampla seção dedicada ao pintor Goya. Francisco José de Goya y Lucientes (1746-1828) teve sua trajetória assinalada por eventos históricos cruciais, inserido em uma época repleta de revoluções, guerras, novas ideias e descobertas científicas. O artista nasceu antes da Independência Americana e da Revolução Francesa, vivenciou o ápice do Império Napoleônico e sobreviveu à morte do general francês, ocorrida em 1821, em uma ilha no meio do Atlântico.
O pintor foi contemporâneo da independência da maioria das colônias espanholas na América e, possivelmente, leu nos jornais que o Brasil realizara sua independência em 1822. Acompanhou os avanços científicos do início do século XIX e teve plena consciência de que aquele seria o século do poderio absoluto da Inglaterra.
Leitor dos grandes pensadores iluministas, Goya acreditava que a Razão, a Ciência e o Progresso tornariam a humanidade melhor. Era uma época excitante; no entanto, ele também testemunhou conflitos de extrema violência, que o fariam duvidar se a Razão estava de fato prevalecendo. Esse contraste dramático entre os ideais iluministas e a barbárie crua afetou profundamente sua vida, seu olhar e sua pintura.
O Museu do Prado abriga duas de suas pinturas sobre um dos acontecimentos mais traumáticos da história espanhola: a invasão napoleônica iniciada em 1807. A Espanha foi ocupada no auge do poder francês, momento em que as tropas de Napoleão também invadiam Portugal, forçando a fuga da família real portuguesa para o Brasil.
A partir de 1808, cresceu um amplo movimento popular na Espanha contra o domínio estrangeiro. É nesse cenário de oposição que ocorrem os episódios retratados pelo artista. A primeira obra, "El Dos de Mayo de 1808 en Madrid" (conhecida como "La Carga de los Mamelucos"), mostra uma rebelião espontânea numa Madri convulsionada. Populares atacaram as tropas francesas, incluindo os cavaleiros mamelucos — originários do norte da África —, lutando com os parcos recursos que possuíam: facas domésticas, paus e pedras.
A segunda tela, "El Tres de Mayo en Madrid", retrata a violenta resposta francesa no dia seguinte: a repressão liderada pelo general Murat, em que cidadãos foram arrebanhados sem critério e sumariamente fuzilados. Essa obra é mais famosa e frequentemente simboliza um grito universal contra a opressão; porém, ambas as telas são essenciais para compreender a mensagem de Goya. Como espanhol, ele via o domínio francês como ilegítimo e a revolta popular como uma resistência heroica.
Contudo, o detalhe mais estarrecedor está nos olhares. Convido o leitor a analisar ambas as telas: nenhum ser humano dirige os olhos ao espectador. No segundo quadro, a vítima de braços abertos expressa indignação e revolta diante do fuzilamento, mas não olha para quem observa a pintura. É no primeiro quadro que encontramos os únicos seres vivos a quebrar essa "quarta parede": os cavalos localizados no centro da composição. Enquanto um madrileno pacientemente crava uma faca no cavalo branco, os animais, cientes de seu fim trágico, fitam o exterior da obra parecendo indagar: há, no Homo sapiens que me vê, algum sinal de Razão?
"O sono da razão produz monstros" é a inscrição de uma gravura feita por Goya anos antes desses acontecimentos. Se no passado ele via a racionalidade como salvação, as guerras o fizeram sugerir que, talvez, apenas os cavalos a preservem, enquanto a humanidade em suas disputas cruentas pouco se esforça para mantê-la. Sabendo da extrema violência e das contradições dos séculos seguintes, o profundo olhar do cavalo pintado por Goya ainda hoje nos convida à mesma e poderosa reflexão: onde está a Razão?
Henrique Cavalcanti de Albuquerque é professor e membro efetivo da Academia Sorocabana de Letras.