Entre craques e crises

Por Cruzeiro do Sul

Pessoas em grupo umas ajudando as outras

Quem acompanha um pouco de futebol sabe que uma seleção vencedora não é formada apenas por talentos individuais. Grandes jogadores podem decidir partidas, mas nenhuma equipe alcança resultados duradouros sem convivência saudável, cooperação genuína e compromisso com um objetivo comum. Em outras palavras, tão importante quanto a qualidade dos atletas é a capacidade de funcionarem como um grupo.

O mesmo princípio se aplica a praticamente todos os ambientes da vida. Equipes de trabalho, famílias, grupos de amigos, organizações e igrejas dependem de relacionamentos saudáveis para prosperar. E relacionamentos saudáveis exigem mais do que boas intenções: exigem maturidade para reconhecer e corrigir comportamentos que enfraquecem a confiança, desgastam a convivência e comprometem o desempenho coletivo.

Dentre os muitos arquétipos que costumam comprometer a vida em grupo, o "mala" ocupa um lugar de destaque. No universo do futebol, a expressão é frequentemente usada para descrever aquele jogador que acredita ser maior do que a equipe. Trata-se de alguém com o ego inflado, excessivamente centrado em si mesmo, que deixa transparecer sua arrogância nas palavras, nas atitudes e na forma como se relaciona com os demais.

O "mala" raramente percebe o impacto que provoca ao seu redor. Enquanto imagina transmitir confiança, muitas vezes comunica soberba. Enquanto acredita demonstrar personalidade, frequentemente revela incapacidade de conviver com limites, opiniões diferentes e a necessidade de compartilhar protagonismo. O resultado é previsível: tensões desnecessárias, desgaste nos relacionamentos e um ambiente cada vez mais difícil para a cooperação.

A Bíblia conta a história de um "mala" chamado Naamã. Ele era comandante do exército da Síria, tinha acesso direto ao rei, era admirado pelo povo e reconhecido por sua coragem e competência. Poucos profissionais desfrutavam de tanto prestígio quanto ele. No entanto, enquanto sua carreira florescia, outra enfermidade crescia silenciosamente em seu coração: a arrogância.

Quando soube que um profeta em Israel poderia curá-lo da lepra, Naamã partiu imediatamente em busca de ajuda. Esperava ser recebido com honras compatíveis com sua posição. Imaginava uma cerimônia especial, palavras solenes e um tratamento à altura de sua importância. Mas nada aconteceu como ele havia planejado.

Ao chegar à casa do profeta Eliseu, sequer foi recebido pessoalmente. O profeta enviou apenas um servo para transmitir uma orientação simples: mergulhar sete vezes no rio Jordão. A reação de Naamã foi instantânea. Sentiu-se ofendido. Ficou indignado. E decidiu voltar para casa sem receber a cura.

Perceba a gravidade da situação. Seu orgulho era tão grande que ele quase preferiu permanecer com sua enfermidade a se submeter humildemente àquilo que Deus lhe estava oferecendo. Felizmente, seus servos o convenceram a reconsiderar sua decisão. Mas o episódio revela uma verdade desconfortável: a arrogância possui o poder de nos afastar justamente daquilo de que mais precisamos.

Quantas vezes fazemos o mesmo? Por orgulho, perdemos oportunidades de crescimento. Por orgulho, rompemos relacionamentos importantes. Por orgulho, rejeitamos conselhos valiosos. Por orgulho, transformamos pequenas contrariedades em grandes crises. Assim como Naamã, muitas vezes preferimos preservar nosso ego a permitir que Deus transforme nosso coração.

É justamente aqui que a história de Jesus nos oferece um contraste extraordinário. Naamã era um comandante respeitado. Jesus é o Rei dos reis. Naamã era admirado por homens. Jesus é adorado pelos anjos. Naamã acreditava merecer tratamento especial. Jesus abriu mão de toda a sua glória para servir e salvar pecadores.

Enquanto Naamã se indignou diante da humilhação, Cristo suportou a humilhação da cruz. Enquanto Naamã quase abandonou tudo por causa de uma contrariedade, Jesus permaneceu fiel até o fim. Enquanto Naamã precisou aprender a descer às águas do Jordão, Cristo desceu voluntariamente à condição de servo para nos reconciliar com Deus.

Talvez a maior evidência da verdadeira grandeza não seja a capacidade de ocupar posições elevadas, mas a disposição de servir humildemente. Foi isso que Naamã precisou aprender. E é isso que Jesus continua ensinando a todos aqueles que desejam viver bem em comunidade. Afinal, grupos saudáveis não são construídos por pessoas que exigem privilégios, mas por pessoas que, seguindo o exemplo de Cristo, aprendem a colocar os interesses dos outros acima dos seus próprios. Em qualquer equipe, a arrogância afasta pessoas; a humildade constrói uma seleção.

Renato de Oliveira Camargo Junior é teólogo formado pelo Seminário Presbiteriano do Sul e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, pós-graduado em Liderança pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em Ministério pelo Missional Training Center, professor de Homilética e Prática da Pregação no Seminário Presbiteriano do Sul e pastor plantador da Comunidade Presbiteriana Campolim, em Sorocaba.