Os abraços do Pelé, Paraná e do morador em situação de rua

Por Cruzeiro do Sul

As histórias da vida acontecem com cada pessoa em seu próprio tempo. O passado segue seu caminho, mas as boas lembranças permanecem guardadas na memória como verdadeiros tesouros de uma época. Revendo a imagem do jogador Paraná ao dar um abraço na sua mãe para estar na Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra, senti o quanto representa esse gesto carinhoso do abraço. Já o presente, o hoje que vivemos, é construído pelas escolhas, pelos encontros e pelos gestos que registramos no arquivo da alma para que, amanhã, se transformem em recordações.

Esta reflexão nasceu após uma conversa em um café com um personagem da vida cotidiana de Sorocaba que tive o prazer de conhecer recentemente. Advogado por profissão e ex-jogador de futebol, carrega uma trajetória marcada por desafios, superação e humanidade.

Uma lembrança fotográfica reproduzida ao lado do Rei Pelé ilustra parte dessa história. Ao acompanhar o filho que estava sendo transferido para um clube da República Tcheca, Pedro foi ao estádio do Santos para tratar da documentação junto ao diretor das categorias de base. “Na ocasião, Pedro encontrou Pelé em um salão de barbeiro. Ao saber que ele era de Sorocaba, o eterno camisa 10 o cumprimentou com um abraço e pediu que levasse suas lembranças aos jogadores do São Bento, especialmente a Paraná, Bazaninho e Raimundinho. Um episódio simples, mas que ficou eternizado em sua memória.

Nascido na rua Rubino de Oliveira, na Vila Carvalho, e atualmente morador do bairro Além Ponte, é filho único. Quando criança, costumava dizer aos pais que gostaria de ter irmãos para compartilhar as brincadeiras da infância. Aos 18 anos, seguindo o conselho do pai, ingressou no Exército Brasileiro, em Itu. Ali aprendeu valores que levaria para toda a vida: disciplina, respeito, responsabilidade e amor à Pátria.

Esses ensinamentos o ajudaram a construir sua trajetória profissional. Formou-se em Direito e escolheu dedicar sua vida à defesa daqueles que buscam justiça. Mas, como acontece com tantas pessoas, a vida lhe reservava provações inesperadas.

A diabetes surgiu e mudou radicalmente seus planos. O atleta da juventude precisou amputar parte da perna e colocar prótese. Como se não bastasse, vieram os graves problemas renais que o levaram à necessidade de um transplante. Durante anos enfrentou a rotina desgastante das sessões de hemodiálise. Viajava frequentemente em uma Kombi com outros pacientes até São Paulo e, mais tarde, realizava o tratamento no oitavo andar do Hospital Leonor Mendes de Barros, em Sorocaba. Eram jornadas que podiam consumir até oito horas de seu dia.

Ao recordar aqueles momentos, ele os descreveu como extremamente difíceis. No entanto, em nenhum instante ouvi uma palavra de revolta. Pelo contrário. Encontrei um homem de fé, sereno e profundamente agradecido pela vida.

Pedro é uma dessas pessoas que parecem ter descoberto algo precioso: a verdadeira riqueza não está no que acumulamos, mas naquilo que somos capazes de oferecer aos outros.

No dia em que o entrevistei, ouvi uma história cotidiana, mas profundamente tocante. Na semana de nosso encontro, ele havia comprado uma marmita para o almoço. Ao sair do seu escritório na rua de São Bento, e ao passar pela praça Coronel Fernando Prestes, encontrou um morador em situação de rua e decidiu oferecer a refeição do almoço.

O homem agradeceu emocionado e, com humildade, fez um pedido inesperado:

— Posso lhe dar um abraço?

Queria agradecer não apenas pela comida oferecida, mas pelo respeito e pela dignidade com que havia sido tratado como ser humano.

Pedro Lima sorriu e respondeu imediatamente:

— Abraço é o que mais gosto.

Naquele instante, o entrevistado disse: “compreendi que existem gestos capazes de alimentar muito mais do que o corpo. Há abraços que restauram a dignidade, renovam a esperança e lembram que ninguém foi feito para viver na indiferença”.

Ao final da conversa, antes de nos despedirmos, fiz o mesmo.

Dei-lhe um abraço.

Porque, às vezes, o maior presente que podemos oferecer a alguém é simplesmente a nossa presença, o nosso carinho e a certeza de que ele não está sozinho. E o abraço faz isso.

Em tempos em que tantas pessoas vivem cercadas de tecnologia, mas carentes de afeto, um abraço sincero continua sendo uma das mais belas formas de demonstrar amor, amizade e solidariedade.

E foi justamente isso que aprendi com ele naquele café: há pessoas que deixam marcas não pelas palavras que dizem, mas pelos gestos que praticam.

E algumas dessas marcas cabem perfeitamente dentro de um abraço. Depois de ler o artigo, experimente abraçar alguém hoje, sentir essa emoção e deixar uma marca. Afinal, há sentimentos que não precisam de palavras - um abraço é capaz de dizer tudo.

Vanderlei Testa é jornalista e escritor.