O agente da história
Recentemente retornaram as discussões sobre a preservação do patrimônio histórico de Sorocaba, dos quais os edifícios da Estação Ferroviária, Fórum Velho, Matadouro e Mosteiro de São Bento são os mais prejudicados. É notório o descaso, embora sejam objeto de proteção legal ou normativa.
A preservação do patrimônio histórico deve ser de todos, sejam pessoas naturais ou jurídicas, de direito público ou privado, por ser parte do crescimento urbano decorrente das transformações científicas, culturais, tecnológicas e sociais que se protraíram no tempo.
A urbanização é um processo de desenvolvimento das cidades, que se faz com projetos para atender aos reclamos da sociedade, cujos interesses são tutelados pelo Poder Público. Tais projetos, porém, não podem ignorar obras preexistentes que compuseram o crescimento urbano, sob o efeito de extinguir edifícios ou lugares de convívio em prejuízo da memória urbana.
Essa memória tem suporte nos marcos, referências presentes como são as ruas, praças e edifícios diversos. O patrimônio histórico é um símbolo, congela o período que representa e preserva a continuidade da memória da sociedade na qual se encontra. Quando perde a importância, desaparece seu significado e tudo o quanto representou.
O agente da história é quem desenvolveu a formação moral, ética, cívica, crítica e a consciência de que o patrimônio histórico de uma cidade também faz parte da história dele e de outras pessoas, na razão de estar presente, na oportunidade de conhecê-lo e na conveniência de preservá-lo para as futuras gerações.
Ele se posiciona ativamente e reage às condutas omissas ou acríticas, que deixam transcorrer o tempo sem preservar o patrimônio histórico. A consciência histórica é fundamental para haver ações em benefício da preservação desses bens, mas nem todos a tem, inclusive desde a formação escolar básica, nos primeiros anos, e continuá-la após a formatura.
Quem não tem consciência histórica, desconhece a importância dos bens históricos para a preservação da memória urbana e dos valores morais, éticos e políticos que os permearam no tempo até a época atual, como ícones de cada período do desenvolvimento da cidade.
Valer-se de justificativas para não restaurar os bens históricos indica falta dessa consciência e descaso com a própria cidade, que os perde em favor de projetos sem respaldo na história da urbanização da referida.
Conclusivamente, o agente da história é quem age com consciência histórica em favor dos bens históricos, porque estes também fazem parte da história dele e deverão fazer parte da história das futuras gerações, para que a cidade nunca perca os marcos urbanos que a fizeram ser a urbe atual e a que pretende ser no futuro. Nada a mais.
Marcelo Augusto Paiva Pereira é arquiteto e urbanista.