Nas garras do dragão, uma reflexão cristã sobre o sofrimento
Dentre as muitas metáforas que a Bíblia utiliza para retratar o sofrimento, uma das mais fortes e impactantes é a metáfora do dragão. No Antigo Testamento, essa palavra aparece como tradução do termo hebraico Tannin, que também pode ser traduzido como “monstro marinho”, “serpente gigantesca” ou “criatura do caos”.
Já no Novo Testamento, surge como tradução da palavra grega Drakon, apontando para uma espécie de personificação do mal que vem para roubar, matar e destruir. Seja qual for a tradução que mais lhe apavore, todos nós, mais cedo ou mais tarde, padecemos nas garras desse dragão.
Há alguns anos, experimentamos o sofrimento dentro de nossa casa de uma das formas mais cruéis: através da dor de um filho recém-nascido. Ele foi acometido por uma dermatite atópica extremamente severa, que o vestiu de uma ferida da cabeça aos pés. Tentando se coçar, ele sangrava por fora e a gente por dentro.
Com o intuito de hidratar sua pele ressecada, tínhamos que untá-lo de creme toda noite e enfaixá-lo com ataduras molhadas, deixando de fora apenas os olhos, o nariz e a boca. Ficava em seu berço sozinho, imóvel, como se fosse uma múmia. Fazíamos isto aos prantos, com medo de que durante a noite ele sufocasse.
Sempre que andávamos com ele pelas ruas, dentro do shopping ou em nossa comunidade de fé, as pessoas olhavam para ele franzindo suas testas com um ar de repulsa e dó que eu nunca esquecerei. Não os culpo por isso, mas também não posso negar que essa reação nos derrubava ainda mais.
À medida que os anos foram passando, o sistema imunológico do Vinícius começou a amadurecer, e deixou de considerar como ameaça alimentos que não representavam perigo para ele. Sua pele foi melhorando, seu humor sendo restaurado, e hoje ele está completamente bem.
Durante os anos de tratamento, fizemos inúmeros questionamentos. Dentre eles, os mais recorrentes foram: “Por quê?”, “Por que conosco?”, e “Até quando?” Essas perguntas revelam a nossa dificuldade de aceitar que o sofrimento seja algo natural, democrático e duradouro.
De acordo com a espiritualidade cristã, pessoas sofrem por pelo menos cinco razões. Em primeiro lugar, porque nos distanciamos de Deus. Se ele é a fonte de todo bem, longe dele ficamos à mercê de inúmeros desarranjos interiores que não podem ser supridos por nenhum bem ou recurso deste mundo.
Em segundo lugar, sofremos porque vivemos em um sistema em desequilíbrio. A Bíblia afirma que, desde que nossos primeiros pais se distanciaram de Deus, o mundo criado por Ele entrou em colapso. Enchentes, tornados, secas e doenças passaram a existir, evidenciando um colapso devastador.
Em terceiro lugar, sofremos porque tomamos decisões erradas. Dizemos coisas que não deveríamos dizer, e fazemos coisas que não deveríamos fazer também. O mesmo acontece com as pessoas ao nosso redor. E isto, faz do sofrimento algo inexorável e amedrontador.
Em quarto lugar, sofremos por causa da disciplina de Deus. Eu sei que essa afirmação não é politicamente correta, pois o ato de disciplinar caiu de moda, mas a Bíblia afirma que Deus disciplina aqueles a quem ama. Neste caso, a disciplina não é meramente um castigo, mas um convite para a mudança de vida.
Em quinto lugar, a Bíblia afirma que sofremos por causa da ação deliberada do diabo. Um ser espiritual criado por Deus que rejeitou o Criador e tentou criar o seu próprio reino. Com ciladas dispostas em nosso caminho ele tenta nos convencer de que Deus não é bom o suficiente e que confiar n’Ele não é algo que vale a pena.
Mais do que isso, a espiritualidade cristã revela um Deus que em Cristo, sente fome, cansaço, rejeição, angústia, lágrimas e morte. Desta forma, não apenas explica o sofrimento, mas apresenta um Deus que sofre com a gente e por nós, a fim de que um dia possamos viver eternamente onde não haverá sofrimento.
Até que esse dia chegue, precisamos nos aproximar daquele que não apenas tem poder para resolver os nossos problemas, mas que pode nos sustentar com a sua graça a fim de não desanimarmos, nem desistirmos facilmente. Se o sofrimento neste capítulo da história é inevitável, enfrentá-lo sozinho não é.
Renato de Oliveira Camargo Junior é teólogo formado pelo Seminário Presbiteriano do Sul e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, pós-graduado em Liderança pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em Ministério pelo Missional Training Center, professor de Homilética e Prática da Pregação no Seminário Presbiteriano do Sul e pastor plantador
da Comunidade Presbiteriana Campolim, em Sorocaba.