A vida pede jornada 30x24
Há jornadas de amor ao próximo que não obedecem a escalas nem a relógios. Uma delas é a da intercessão por alguém enfermo, em situação delicada, nas Unidades de Tratamento Intensivo (UTI). Recentemente, recebi a notícia de um amigo: um jovem sacerdote foi inesperadamente internado, vítima de uma bactéria de alto risco à sua vida. Em poucos minutos, uma corrente de oração se formou. De hora em hora, alguém se colocava em oração no sacrário por sua cura e pela superação do perigo.
Acredito na força que emana dessa energia de amor. Em quinze dias, ele recebeu alta hospitalar — graças ao atendimento médico e, acredito também, às centenas de preces.
Se, em vez de fomentar guerras e disputas de poder, as lideranças mundiais cultivassem esse amor que gera paz e vida, o mal perderia espaço na humanidade. Impressiona como a destruição e a morte de inocentes — crianças e adultos — já não sensibilizam líderes movidos pelo ódio e pelo dinheiro. Em contrapartida, existem milhões de pessoas comprometidas com jornadas do bem.
Em Sorocaba, exemplos como o da Santa Casa de Misericórdia revelam de forma expressiva esse amor dedicado aos enfermos do Sistema Único de Saúde (SUS). Um trabalho que vai além das jornadas formais de médicos, equipes de enfermagem e profissionais administrativos. Ao longo de um ano de pesquisas e diálogos com a diretoria do hospital, acompanhei de perto essa realidade ao escrever o livro que resgata os 222 anos de sua história.
A transformação física e tecnológica do hospital é relevante, mas nada supera o cuidado humano dispensado aos pacientes. A rotina dos profissionais de saúde é exigente, marcada por desgaste físico e emocional. Ainda assim, se perguntarmos a um profissional da saúde qual sua maior alegria, a resposta certamente virá carregada de sentido: acompanhar a recuperação de um paciente, ver o sorriso de uma mãe ao lado do filho restabelecido, após dias e noites de vigília e esperança.
O Gpaci — Grupo de Pesquisa e Assistência ao Câncer Infantil — é prova viva dessa dedicação, 365 dias por ano. Estive lá e posso afirmar: é o amor materno manifestado em sua forma mais pura. Os olhos das crianças brilham, sentem-se acolhidas e seguras. E a equipe do hospital se desdobra para que o sino, que anuncia a alta de uma criança, ecoe pelos corredores como um verdadeiro cântico de vida.
A mensagem deste artigo converge para a jornada da vida. Seja nas escalas 6x1, 5x2 ou em qualquer outro modelo em debate no Brasil. Pode ser utopia essa imagem que ilustra este artigo, mas acredito que durante 30 dias mensais, 24 horas, durante os 365 dias do ano, a paz e o amor podem ser conquistados pelo ser humano. A receita não é prescrita, mas faz parte dos ensinamentos de Jesus, quando afirmou em seus evangelhos; “amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei”.
Compartilho com os leitores uma reflexão ouvida de um médico e cientista, dedicado há mais de 40 anos ao estudo do cérebro e da alma:
“Se você não se ama, se não cultiva o amor no coração, dificilmente fará aquilo que lhe traz sentido, aquilo que faz seus olhos brilharem. Quem não encontra o amor dentro de si, não o reconhece nos outros, nem compreende as pessoas. É preciso descobrir esse amor que nasce quando fazemos o que está em sintonia com o nosso coração. Assim, aprendemos a amar 24 horas por dia, todos os dias do ano. A vida é um laboratório — do latim labor, trabalho, e oratório, de orar, interceder. Substitua o ódio pelo amor e seja feliz”.
Vanderlei Testa, jornalista e escritor.