Agregar valor é hoje outra coisa
Uma das obsessões das esquerdas brasileiras é a de que o projeto de desenvolvimento do Brasil tem de focar a agregação de valor ao produto primário nacional: é preciso transformar minérios, petróleo e produtos agrícolas e não exportá-los em estado bruto. O princípio tem seu lado correto, mas os tempos mudaram e, com eles, mudaram a geopolítica e o conceito de valor a agregar.
Até recentemente, a ideia de agregação de valor quase sempre se resumia a avançar na industrialização.
Houve até um ex-ministro da Fazenda para quem a força nas exportações de commodities era uma das causas da desindustrialização, porque traziam dólares demais e, com eles, a valorização excessiva da moeda nacional (doença holandesa) que, por sua vez, tirava competitividade do produto industrializado.
Por isso, tantos economistas desenvolvimentistas, e não só do PT, vinham denunciando o que entendiam como a transformação do Brasil “num fazendão” ou num País atrasado, extrator de minérios
As coisas mudaram muito. A industrialização foi e continua sendo importante, mas não mais como agente essencial de agregação de valor. Ainda mais importante passou a ser o setor de serviços. Os grandes fornecedores de computadores e de celulares não fazem mais questão de produzi-los internamente. Concentram-se na elaboração de projetos nos seus próprios vales do silício e depois relegam a montagem a outros lugares, o que também vale para calçados, especialmente para tênis ou para peças de vestuário.
As novas exigências de segurança alimentar passaram a dar muita importância não só à capacidade de produção, mas também a de exportação de commodities alimentares, como soja, milho, trigo, café, açúcar e carne. Os Estados Unidos, ainda a maior potência econômica do planeta, são o maior produtor de commodities agrícolas, e nem por isso se sentem “um fazendão”.
Algumas vezes neste espaço ficou lembrado que poucas atividades agregam mais valor do que a agricultura e a mineração. Quanto não agrega valor o plantio de uma saca de sementes de soja? Minério debaixo da terra não vale nada, mas, tirado de lá, vale o que vale.
Ainda hoje, o governo do PT quer porque quer concentrar investimentos preciosos em refinarias de petróleo, que dentro de mais alguns anos perderão importância, e não em apressar a produção de petróleo, antes que seja tarde demais. Melhor proveito teria o Brasil se os recursos que poderiam ser destinados a novas refinarias fossem usados para formar reservas de combustíveis, como fazem os Estados Unidos e países da Europa
Só agora, as autoridades brasileiras parecem ter entendido a necessidade de explorar as terras raras. Até agora, o setor não mereceu nenhuma atenção e nenhum planejamento.
Enfim, mais cego é aquele que não quer ver.
Celso Ming é jornalista e comentarista de economia.
Nota da Redação: Foto mostra a extração, em Minaçu (GO), de elementos essenciais à fabricação de ímãs permanentes, usados em veículos elétricos.