Artemis: O retorno à Lua tem rosto de mulher
Na década de 1960, o mundo parou. Famílias inteiras se amontoaram diante de aparelhos de TV em preto e branco para testemunhar o impossível: o ser humano tocando o solo lunar. O nome daquela epopeia não foi escolhido ao acaso. Apollo, o deus grego do Sol, da luz e da razão, iluminava o caminho da humanidade rumo ao desconhecido. Foi um “salto gigante”, mas um passo dado apenas por homens.
A mitologia, porém, nos ensina que Apollo nunca caminhava sozinho; ele tinha uma irmã gêmea, Artemis, a senhora da Lua, da vida selvagem e a protetora das mulheres. Hoje, mais de meio século depois, é o nome dela que estampa os foguetes da Nasa. O Programa Artemis não é apenas uma continuação do passado, mas uma correção histórica e um manifesto de progresso. É a missão que levará, finalmente, a primeira mulher e a primeira pessoa negra a deixarem suas pegadas na poeira cinzenta do nosso satélite, provando que o céu não tem donos, mas sim horizontes que pertencem a todos nós.
Para que esse reencontro histórico entre Artemis e a Lua aconteça, a engenharia moderna precisou superar limites que pareciam intransponíveis. O protagonista dessa força bruta é o foguete SLS (Sistema de Lançamento Espacial), um gigante de 98 metros de altura — superando a Estátua da Liberdade —, capaz de gerar um empuxo que faz a terra tremer a quilômetros de distância. Ele é a fundação necessária para lançar a cápsula Orion para além da órbita terrestre, em regiões do espaço profundo onde nenhum outro veículo tripulado atual consegue operar.
Se o foguete representa a força, a cápsula Orion é o cérebro e o escudo. Projetada para manter quatro astronautas seguros no vácuo hostil, ela enfrenta temperaturas de quase 2.800 C ao reentrar na nossa atmosfera. Mas há uma diferença fundamental entre os “gêmeos” espaciais: enquanto as missões Apollo eram como acampamentos rápidos em solo estrangeiro, o sistema Artemis está sendo testado agora, neste abril de 2026, para que possamos construir bases científicas permanentes. A Lua deixou de ser apenas um destino de visita para se tornar a nossa ponte para Marte.
Esse esforço tecnológico não se limita apenas a enviar pessoas para fora da Terra; ele impulsiona a economia aqui embaixo. Cada componente do SLS e da Orion envolve milhares de empresas e centros de pesquisa, gerando empregos e inovações em materiais, medicina e comunicações que acabam chegando aos nossos lares. Quando investimos no espaço, estamos, na verdade, acelerando o desenvolvimento de tecnologias que, no futuro, podem estar na palma de nossas mãos ou nos hospitais de nossa própria região. A ciência espacial é, acima de tudo, um investimento no bem-estar humano.
Enquanto você lê este jornal, em algum ponto a centenas de milhares de quilômetros de distância, quatro seres humanos a bordo da missão Artemis II observam a Terra como uma frágil esfera azul. Entre eles, a astronauta Christina Koch personifica a deidade que dá nome à missão, tornando-se a primeira mulher a orbitar a Lua. O sucesso deste lançamento, ocorrido há poucos dias, é o sinal de que a ficção científica se tornou realidade em nosso tempo.
Imagine o impacto disso para uma criança que, hoje, observa as estrelas de um quintal ou de uma praça em nossa cidade. Saber que uma mulher está agora orbitando a Lua não é apenas uma curiosidade científica, é um convite para que nossos jovens se interessem por matemática, engenharia e ciência. O programa Artemis prova que o lugar de qualquer cidadão, independentemente de onde venha, pode ser entre as estrelas, desde que haja incentivo e educação de qualidade.
Ao olharmos para o céu hoje à noite, a Lua não será apenas um adorno de prata. Ela será um lembrete vivo de que, com união e propósito, o impossível de ontem é o endereço de amanhã. O retorno à Lua tem o rosto da igualdade, a força do aço e, acima de tudo, carrega o sonho de cada um de nós.
Herman da Costa Oliveira é graduado em psicologia e filosofia, sócio efetivo e secretário da Academia Sorocabana de Letras (ASL), do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba (IHGGS), do Instituto Cultural José Aleixo Irmão (ICJAI) e Conselheiro da GIA-União Cultural