Confrarias

Por Cruzeiro do Sul

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Originadas na Idade Média (476 a 1453 d.C.), com objetivos comuns entre seus participantes, as confrarias, nos dias atuais, passaram a designar grupos sociais, esportivos, gastronômicos, enófilos ou profissionais que promovem encontros, trocas de experiências, estudos e networking. Essa definição contemporânea inspira o artigo de hoje.

Nos mecanismos de busca, encontramos centenas de confrarias das mais variadas vertentes, todas unidas pelo propósito de reunir pessoas em torno de interesses comuns. Entre elas, destacam-se os enófilos, que organizam encontros para degustação de vinhos nacionais e internacionais, como a confraria “Simpre”, formada por amigos do bairro Santa Rosália, que alternam rótulos argentinos e chilenos em suas reuniões.

Em Sorocaba, há diversas confrarias de amigos que se reúnem periodicamente para conversas leves, quase sempre acompanhadas de um bom café, chope ou vinho, em ambientes acolhedores. As redes sociais registram esses momentos com fotos e relatos que traduzem a leveza desses encontros.

Um dos grupos que chamam a atenção é o dos ex-jogadores do tradicional Milan de futsal. Nas mesas da cafeteria que frequentam mensalmente, é possível encontrar atletas das décadas de 1960 e 1970 em animadas rodas de conversa, celebrando a amizade construída nas quadras. São memórias vivas dos tempos de disputas no ginásio da Santa Rita, no Ginásio Municipal de Esportes e em outras quadras que, à época, reuniam verdadeiros astros da bola em campeonatos memoráveis, como o “Cruzeirão”.

Há também confrarias que atravessam décadas. Ex-alunos do curso de Administração da FACCAS celebram mais de 50 anos de convivência. Cinco amigas da Escola Rubens de Faria mantêm, há mais de 60 anos, o hábito de se reunir para um café da tarde com bolo e muitas histórias recontadas com alegria.

Existem ainda confrarias formadas por amigos unidos pelo ideal de fazer o bem à comunidade. Um exemplo é a “Confraria 26”, assim denominada por ter sido fundada no dia 26 de fevereiro de 2026. Entre seus integrantes está um educador que, ao lado de dois amigos, fundou uma das maiores redes de ensino da cidade, abrangendo da educação infantil ao ensino superior.

Participar como convidado de um desses encontros revelou histórias surpreendentes. Foi assim que conheci, por exemplo, a campanha “Largue de Fumar Correndo”, realizada em décadas passadas com apoio da Fundação Ubaldino do Amaral (FUA), uma iniciativa pioneira que uniu saúde e qualidade de vida.

Outro personagem marcante do grupo é um empresário mineiro, natural de São Francisco do Glória, que chegou a Sorocaba vindo do Rio de Janeiro na década de 1980. Aqui construiu sua história, formou família e revelou também sua sensibilidade como poeta. Dele, fica este belo registro:

“Lampejos de clarão da madrugada,

brilha ainda muito ao longe

o raio de fulgor da luz amada;

a brisa se esvai, com o sol se esconde.”

Na mesma confraria, encontrei ainda o atual presidente da Sociedade Amigos da Marinha (Soamar), cuja trajetória começou na adolescência, ao ingressar no Senai aos 13 anos, vindo de Laranjal Paulista, incentivado pelo pai lavrador. Em Sorocaba, construiu carreira até se tornar engenheiro e industrial respeitado.

No encontro do mês de março da Confraria 26, reencontrei também um engenheiro que presidiu a Associação dos Engenheiros e Arquitetos de Sorocaba. Integra o grupo ainda um capitão do Exército Brasileiro, hoje aposentado, que se dedica à produção literária, além de um advogado com raízes no bairro Além Ponte, cuja sabedoria ilumina as conversas, e um empresário motociclista, nascido em Salto de Pirapora, com mais de cinco décadas de atuação comunitária.

Os leitores certamente conhecem outras confrarias — e talvez até sintam o desejo de iniciar uma com seus próprios amigos. Um simples telefonema ou mensagem pode ser o ponto de partida para encontros que, com o tempo, se tornam parte essencial da vida.

A mensagem que fica dessas confrarias é simples e profunda: a importância de viver momentos de amizade sincera, sem expectativas, apenas pelo valor do encontro humano. Um abraço de boas-vindas, uma boa conversa, um café compartilhado, uma taça de vinho ou uma caneca de chope — e, sobretudo, a certeza de voltar para casa um pouco mais feliz.

Vanderlei Testa é jornalista e escritor