Escalas humana x urbana

Por Cruzeiro do Sul

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O crescimento das cidades em geral tem causado paradoxos entre a realidade urbana e as doutrinas ensinadas nas faculdades de arquitetura e urbanismo. Enquanto nestas a finalidade é o atingimento do conforto, naquelas o conforto tem sido preterido pelos crescentes investimentos imobiliários.

Áreas então providas de diversas habitações unifamiliares, com quintais e conectas com as ruas, que serviam de espaços de lazer (extensão) daquelas, estão sob a mira de investidores imobiliários que prestigiam o sucesso comercial, em detrimento da urbanização preexistente, inclusive quanto aos espaços públicos das ruas adjacentes.

O ambiente voltado para o convívio entre os habitantes, definido pela escala humana, tem reduzido seu espaço para obras em escala urbana, destinada a favorecer aludidas cidades enquanto territórios de conexões entre habitações, lazer, trabalho e transporte.

Muitos dos edifícios construídos no lugar daquelas habitações não acompanharam as regras ensinadas quanto às melhores posições solares para iluminar os apartamentos e outros espaços, nem sobre as escalas com as quais tais obras deveriam ser projetadas em relação às ruas e outras vias públicas adjacentes.

Erguidos com dimensões desproporcionais às áreas do entorno de cada, subtraíram das ruas os espaços de lazer, tornaram-nas corredores de circulação, sufocaram as cidades com mais fluxos de pessoas e veículos e as transformaram em lugares com insolação inadequada, trechos sombrios e outros sinistros, sem alma, nos quais o convívio humano é ignorado.

Trazer de volta a escala humana nas cidades requer o redesenho de vários trechos urbanos, nos quais haja a separação entre a circulação de pessoas e a de veículos. Nestes, os espaços devem ser planejados para grandes construções comerciais, de entretenimento, industriais e outras. Naqueles, para habitações de pequeno e médio porte, lojas, bares, lanchonetes, restaurantes, pequenas mercearias e quitandas, conectadas por calçadões, ciclovias e ruas destinadas aos veículos dos moradores.

O redesenho desses trechos também deve acolher as regras de insolação e distribuição dos espaços urbanos, para que os projetos arquitetônicos favoreçam os ambientes das habitações, salas comerciais e de outras construções. A finalidade é revitalizar mencionados espaços para devolver aos habitantes o conforto mitigado ou perdido.

Conclusivamente, a disputa entre as escalas humana e urbana tem gênese nos investimentos imobiliários na massiva urbanização das cidades, em prejuízo da escala humana anteriormente existente, na qual o conforto fazia parte do lazer de muitos moradores. A reconquista da escala humana dependerá de novos projetos urbanísticos que separem os espaços e reponham o conforto (a alma urbana), perdido nas vias sombrias que se sobrepuseram ao convívio dos habitantes. Nada a mais.

Marcelo Augusto Paiva Pereira é arquiteto e urbanista.