Dois meses de guerra e seu impacto
Nesta terça-feira, a Guerra do Irã completa dois meses. Pelas declarações do presidente Trump, era para durar uma ou duas semanas, mas se vê que não tem prazo para acabar.
Até agora, não ficaram claros os objetivos desse conflito. Derrubar o regime teocrático dos aiatolás? Impedir que o Irã prossiga no processo de obtenção da bomba atômica? Eliminar a causa das guerras terceirizadas pelo Irã, empreendidas na Faixa de Gaza, pelo Hamas; no Líbano, pelo Hezbollah; e no Iêmen, pelos Houthis?
No entanto, apesar dos ataques maciços aos centros de poder e da morte de líderes importantes do governo iraniano, o regime até se consolidou porque, em nome da união nacional, a oposição se retraiu. Tampouco o conflito destruiu o Hamas, o Hezbollah e os Houthis.
Uma das mais importantes exigências dos Estados Unidos passou a ser a de que o Irã desbloqueie o Estreito de Ormuz. Mas, antes do início da guerra, o estreito não estava bloqueado e, portanto, não pode ser citado como objetivo. Hoje não se sabe quem mais bloqueia a passagem — fator que catapultou os preços do petróleo para acima dos US$ 100 por barril —, se o Irã ou se os Estados Unidos.
A tal rendição condicional a ser imposta ao Irã, exigida pelo presidente Trump, não faz sentido uma vez que prosseguem as negociações para o fim das hostilidades.
É pouco repetir que a incerteza aumentou e que continua indefinida. O petróleo, mais caro do que em fevereiro, deve continuar caro meses depois do fim da guerra, porque os países consumidores terão de recompor seus estoques estratégicos usados nesse meio tempo. Também será necessário reconstruir a infraestrutura do petróleo e de gás em toda a região, o que leva tempo.
Tampouco será possível recompor rapidamente os canais de produção e de distribuição hoje destroçados. Isso significa que o mundo terá de conviver por mais tempo com a alta dos preços da energia, com o aumento da inflação, que daí se espalhará, e com a puxada dos juros que os bancos centrais terão de determinar.
O governo Trump tem agora razões mais fortes para se empenhar pelo fim da Guerra. Os índices de popularidade do seu governo despencaram. Se essa situação persistir, os estragos políticos que deverão sobrevir às eleições intermediárias de novembro poderão ser irreversíveis. Além disso, nos Estados Unidos está próximo o início do plantio das safras de verão. Além de prejudicar a produção, a forte alta dos fertilizantes poderá aumentar o repúdio dos eleitores nos Estados Unidos.
A economia do Brasil vem sendo apontada mais como beneficiária do que como perdedora com o impacto dessa guerra, porque vem aumentando suas receitas com exportação de petróleo. Mas a inflação já faz estragos mais do que o esperado e o desapontamento do eleitor vem aumentando.
Celso Ming é jornalista.