Família blindada: Um desafio em meio ao capitalismo da atenção

Por Cruzeiro do Sul

.

Estamos em guerra. E não me refiro a uma guerra travada com tanques e aviões, na qual países se bombardeiam mutuamente na tentativa de prevalecer uns sobre os outros. Refiro-me a uma guerra travada pela nossa atenção, pela nossa escuta, pela nossa observação. E esse conflito tem prejudicado profundamente as nossas famílias.

Chris Hayes, autor do livro “Capitalismo da Atenção: Como a Atenção se Tornou o Recurso Mais Escasso do Mundo”, afirma, nessa obra, que: “O comércio é uma guerra por atenção. A vida social é uma guerra por atenção. Educar os filhos é uma guerra por atenção. E estamos todos a sentir-nos cansados da guerra.”

Dessa forma, ele procura nos alertar para o fato de que os algoritmos atuais, que estão por trás de todas as nossas formas de navegação na internet, aplicam técnicas de identificação de interesses e de manipulação do desejo, que capturam o olhar humano de maneira persuasiva para depois revendê-lo a anunciantes obcecados pelo consumo.

Nesse contexto, temos nos tornado verdadeiros reféns de nossos aparelhos eletrônicos. Pesquisas recentes, realizadas pela Consumer Pulse, indicam que nós, brasileiros, passamos cerca de 9 horas e 13 minutos por dia na internet, sendo que 3 dessas horas são dedicadas às redes sociais — o que constitui um dos maiores índices do mundo.

A hiperconexão não é um problema apenas para o nosso bolso. É também um problema para as nossas famílias, pois o envolvimento virtual rouba de nós o tempo que, antigamente, tínhamos para conversar à mesa durante as refeições e até mesmo dentro do carro, enquanto nos deslocávamos de um lugar para outro.

Em decorrência disso, cônjuges já não aprofundam sua intimidade, pais e filhos não dialogam adequadamente, e a convivência dentro de casa tem se tornado cada vez mais tensa e irritadiça. Se este é um problema a ser superado, como podemos blindar nossas famílias, a fim de não sermos completamente destruídos?

A resposta para essa questão está em Deuteronômio 6, onde encontramos o “Shemá Israel” — a principal declaração de fé do judaísmo. Ela começa com uma advertência contundente: “Escute, Israel...”. Essa advertência é um convite ao silenciamento de todas as demais vozes que disputam a nossa atenção, para ouvirmos, prioritariamente, quem precisa ser ouvido: o Senhor.

Quem dedica atenção a Deus encontra identidade, valor, senso de pertencimento, perdão, justiça e uma série de outras coisas que nos habilitam para a vida ao lado de outras pessoas. Quem não recebe esse conteúdo de Deus acaba demandando daqueles com quem convive aquilo que eles definitivamente não têm para oferecer.

Na sequência do texto, o autor bíblico afirma: “O Senhor, o nosso Deus, é o único Senhor.” Ou seja, devemos cuidar para que todas as demais vozes, que podem e devem ser ouvidas, não se tornem ídolos para nós. Este é um imperativo profundamente pertinente, pois muitos de nós temos idolatrado os nossos gadgets e vivido como súditos deles, entorpecidos em seus altares.

Depois disso, o “Shemá Israel” nos convida a dedicar atenção aos nossos familiares: “Ensine-as com persistência a seus filhos. Converse sobre elas quando estiver sentado em casa, quando estiver andando pelo caminho, quando se deitar e quando se levantar. Amarre-as como um sinal nos braços e prenda-as na testa. Escreva-as nos batentes das portas... e em seus portões.”

Moral da história: quem dedica a devida atenção a Deus aprende, na sequência, a dedicar a devida atenção aos seus familiares também. E essa atenção deve se manifestar em palavras e ações, dentro e fora de casa. Em outras palavras, a espiritualidade vertical com Deus deve desembocar, necessariamente, em uma espiritualidade horizontal, dedicada à família.

Como você avalia a sua convivência familiar? Vocês têm conseguido dedicar a devida atenção uns aos outros ou têm se perdido em meio ao capitalismo da atenção? Seja qual for a sua resposta, lembre-se: dedicar a devida atenção a Deus é o primeiro passo para quem deseja cultivar uma família equilibrada e feliz.

Renato de Oliveira Camargo Junior é teólogo formado pelo Seminário Presbiteriano do Sul e pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, pós-graduado em Liderança pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em Ministério pelo Missional Training Center, professor de Homilética e Prática da Pregação no Seminário Presbiteriano do Sul e pastor plantador da Comunidade Presbiteriana Campolim, em Sorocaba.