Os cinemas de rua em Sorocaba nas décadas de 50, 60 e, até, 70
Embora não tivesse havido em Sorocaba uma espécie de “Cinelândia”, denominação dada a um conjunto de cinemas próximos uns aos outros, em centros de cidades, como era moda em muitas capitais e mesmo em importantes municípios do interior brasileiro, nossa terrinha teve algo próximo deste formato. Na rua de São Bento existiu o Cine-Teatro São José, na esquina da rua Nogueira Martins. Após um tempo, construiu-se uma enorme sala na parte detrás deste, que acabou por receber a denominação de Cine São José “Sala Nova”. Tinha uma capacidade de mais de dois mil expectadores, com dois balcões sobre parte da plateia. Lotação impensável para os dias atuais, onde a capacidade dos cinemas de shopping rodeia os 300 lugares.
Essa sala tinha relativo conforto para a época, mas não oferecia o indispensável ar-condicionado, requisito obrigatório em todas as salas nos dias de hoje. Presença constante nestes dois cinemas, era a do sr. Miguel Bataclã, gerente e administrador da companhia exibidora, que conduzia de forma austera as sessões. É importante pontuar que mesmo com esse desconforto, era comum formarem-se longuíssimas filas para assistir os grandes lançamentos. Chegavam até a adentrar à rua Ubaldino do Amaral, e, por muitas vezes, chegar até a rua Leite Penteado.
Vizinhos dos dois Cines São José, existiu uma pastelaria que produzia cerca de quatro mil pastéis por noites de finais de semana (nostálgicos dados fornecidos orgulhosamente por familiares dos proprietários). Era comum “levar para casa” essa iguaria em quantidades exageradas até para os dias atuais! Seria o valor bastante acessível, o fator responsável? Difícil responder. Ainda na rua de São Bento, também na esquina da Nogueira Martins, adaptado a um espaço de um estacionamento e posterior rinque de patinação, de nome Broadway, surgiu o Cine São Bento. Não muito longe destes, na Cel. Benedito Pires, próximo à Catedral, existiu o Cine Caracante, em elegante construção art déco, na cor rosa, cuja fachada principal sobrevive íntegra até os dias atuais. Cedeu lugar a um teatro, denominado América e, após, hospeda um magazine de rede nacional. Tinha uma grande capacidade de expectadores, cerca de 600, incluído um balcão. Era comum à porta deste cinema e, também dos outros, a presença de um policial da “Guarda Civil”, em seu traje de gala branco, para impor a devida ordem, caso fosse necessário...Outro personagem obrigatório era o “lanterninha”, que tinha a missão de orientar os retardatários aos assentos e coibir eventuais exageros comportamentais de alguns frequentadores.
Fato curioso era o intercâmbio dos pesados rolos de filmes, de um cinema para outro, de modo a sincronizar as sessões. Saindo um pouco do “centro nobre” da cidade, mas ainda dentro da área central, existiu, na rua Cesário Mota, em frente à rua Professor Toledo, o Cine Ouro, depois denominado Regina. Uma construção moderna para a época, mas de capacidade menor dos que aqui já foram citados. Hoje é ocupado por uma igreja, mas mantém inalteradas, ainda, as linhas da fachada original.
Indispensável neste “passeio” pelos cinemas de rua de Sorocaba, nos dirigirmos para os bairros. Iniciamos pelo Cine Líder (foto), na praça Frank Speers, no Além-Linha, que marcou época, ao oferecer, ao público do derredor, uma ocasião de entretenimento, mesmo que somente nos finais de semana, salvo engano. Era de bom tamanho. Após longos anos de vida, também cedeu lugar a uma igreja. Hoje o local está vazio, com placa de “aluga-se”. Mantém inalterada sua fachada.
No Além-Ponte, ainda em imponente prédio art déco, resta o que sobrou do outrora Cine Eldorado, soberbo em ponto estratégico da av. Nogueira Padilha, próximo à Igreja de Bom Jesus. Esta sala, assim como a do Cine Caracante, eram famosas por exibirem, nas tardes de domingos, os famosos “seriados”, opção obrigatória da maioria da gurizada. Os filmes, em sua grande parte, eram do gênero faroeste. Hoje o prédio está à venda.
Bastante afastado do centro da cidade, existiu o Cine Santa Rosália, no bairro de mesmo nome, ocupando uma esquina do que hoje sobrou do Villàgio Shopping, na praça Pio XII. O cinema foi construído pela Cianê e tinha uma concepção moderna à época, com as cortinas do palco que se abriam e fechavam automaticamente. Detalhe curioso dessa sala de exibição: os assentos eram almofadados (luxo para a época), mas os encostos dos mesmos eram de madeira...vá entender....Contudo, era um cinema agradável e um bom motivo de passeio, pois o bairro de Santa Rosália ficava “distante” do centro da cidade, pois nada havia de construções onde hoje está localizado o CIC e a praça da Amizade e adjacências, tornando-se, assim, distante da parte “antiga do bairro”, onde o cinema se situava, nas proximidades da recém construída Igreja de Santa Rosália, de concepção moderna e a primeira com o altar “versus populi” da cidade, ou seja, voltado para os fieis.Templo presente na lateral da praça mais histórica da cidade, a praça Pio XII, de estilo inglês, caracterizada pelos belos e raros espécimes de árvores e o elegante coreto em seu centro, cenário obrigatório para muitas fotos de casamento e que ainda permanece como tal. Na esquina defronte ao cinema, funcionou, por um bom tempo, o Bar Bonadia, com concepção avançada para a época, e que se tornou “point”, como se fala nos dias de hoje. Era quase uma obrigatoriedade comer uns lanches alí, acompanhados de bebidas e afins, após as sessões.
De Santa Rosália, partimos para algumas salas menores e mais modestas, como o Cine Pinheiros, na rua Campos Salles, no bairro de mesmo nome. E, ainda, o Cine Vergueiro, situado nas imediações da Usina de Leite, depois Colaso, próximo à atual rodoviária. Dentro de um novo loteamento nos altos do Cerrado, denominado Jardim São Paulo (final da av. General Carneiro e início da hoje denominada av. Dr. Armando Pannunzio), foi construído pela loteadora, um prédio destinado a ser um cinema na avenida principal do novo bairro. Tenho pouca informação a seu respeito, no entanto, acredito que não chegou a funcionar como tal.
Essa construção é ocupada hoje por um supermercado de médio porte, num ponto estratégico da av. Getúlio Vargas. Este foi um sucinto relato de uma época onde as sessões matinais (que na verdade eram por volta das 15h) denominadas de “matinée” e as noturnas de “soirée”, influência francesa, possivelmente originadas do inventor do cinema, o francês Louis Lumière.
Para finalizar, nos anos 70, inaugurou-se o Cine Pedutti, na praça Dr. Ferreira Braga, em frente ao Colégio Santa Escolástica, no centro da cidade. Confortável e moderno, foi a primeira sala com ar-condicionado em Sorocaba. Vão-se anos...
Salvador Stefanelli é administrador de empresas aposentado e apaixonado por Sorocaba