Expansão urbana e cidadania

Por Cruzeiro do Sul

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A expansão urbana da cidade de Sorocaba começou em razão do ciclo do tropeirismo, que marcou, até a época atual, o traçado de importantes ruas da cidade.

Segundo a historiadora Lucinda Ferreira Prestes, até 1770, Sorocaba tinha pouca população (exceto nas feiras de muares), e seus pontos mais afastados seriam os finais da rua da Penha, que coincidiam com o caminho de Campo Largo (Araçoiaba da Serra), e o Largo do Rosário (rua da Ponte — hoje XV de Novembro —, cujo trajeto ia até a ponte de madeira que cruzava o rio Sorocaba). Nesse tempo, a cidade ainda era Vila de Sorocaba. “Para o desenvolvimento capitalista, é importante a transformação do espaço para transporte de mercadorias” (Emerson Ribeiro).

Em 1841, o presidente da província de São Paulo, Rafael Tobias de Aguiar, promulga a Lei Provincial número 17 de 26/03, determinando a construção de uma ponte de pedra sobre o rio Sorocaba, sob o comando do tenente Elesbão Antônio da Costa (construtor do Teatro São Rafael e integrante da Sociedade Teatral Recreação Sorocabana). Ambas as obras foram interrompidas pela Revolução de 1842. Inaugurada em 1845, a ponte passou por reformas em 1895 e 1934, e outra em 1966. No nosso caso, a ponte facilitou o deslocamento das tropas de muares para São Paulo pela avenida que hoje tem o mesmo nome.

O declínio do comércio de muares começou em meados do século XIX, e, no Segundo Império (1853), já havia intenções de construir estradas de ferro para o escoamento do café e da cana-de-açúcar. Com a incorporação da São Paulo Railway Company Ltd. (Londres), o interesse na construção de ferrovias se espalhou. A partir de 1869, inicia-se entre os capitalistas de Sorocaba uma discussão sobre as vantagens em levantar o capital subscrito para criar a Companhia Sorocabana. Com a ajuda da população e o financiamento do Banco União, em 1871 foi iniciada, por Maylasky, a via férrea de Sorocaba-São Paulo-porto de Santos.

Seu tráfego foi inaugurado em 1875. A mesma companhia inaugurou uma linha de bondes centrais que ia do Largo 9 de Julho até o bairro dos Morros. Quando da falência do Banco União, os bondes passaram para o governo municipal, que os retirou de circulação em 1959 e demoliu a ponte de ferro sobre o rio Sorocaba, por onde corriam os bondes.

O Passado Reflete no Presente

Podemos relacionar essa breve história das pontes centrais da nossa cidade com a notícia da construção da Marginal Direita do rio Sorocaba, por apresentarem vários aspectos semelhantes. Nesses quase 20 anos de planejamento da nova marginal, em momento algum houve uma consulta aos munícipes quanto à sua necessidade em detrimento de outras obras; os argumentos são a mobilidade, o lazer e a compensação ambiental para os problemas que o projeto causará.

“Teremos fiscalização contínua e monitoramento intersetorial para garantir que o TAC seja cumprido integralmente?” (jornalista Oliveira Jr., do Portal RMS NEWS). Essa área é “sensível ecologicamente” e perdura há anos com alagamentos em vários bairros marginais ao rio. O projeto tem estudos ambientais suficientes para mitigar esses problemas crônicos nas marginais do rio? A população também não foi consultada sobre o tema.

“O que muda na região? Com a nova via, parte do tráfego que hoje se concentra na avenida Dom Aguirre será redistribuída, o que tende a reduzir congestionamentos e diminuir o tempo de deslocamento no dia a dia. A intervenção também deve melhorar a segurança de motoristas, ciclistas e pedestres, além de prever o ajuste da cota de cheia do rio, reduzindo riscos em áreas que hoje estão suscetíveis a inundações, como o trecho próximo à rua Saliba Mota. A melhoria no acesso beneficia o comércio e os serviços do entorno, ajudando a fortalecer a economia local e a tornar a circulação mais eficiente para quem vive, trabalha ou transita em Sorocaba”.

A história nos ensina que a expansão urbana e a cidadania podem — e devem — caminhar juntas. Honrar o passado de Sorocaba exige que o progresso atual seja construído com transparência e respeito ao equilíbrio ambiental.

Angeles Paredes Toral, sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras, (Inspirado no artigo “As duas pontes que desapareceram” de Antônio Francisco Gaspar, meu patrono na ASL, publicado em 25/03/1969 no jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba)