A solidão nos tempos da tecnologia

Por Cruzeiro do Sul

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Nunca estivemos tão conectados. Ao tocar uma simples e pequena tecla, o mundo abre-se para nós, nos fazendo tomar ciência do que acontece no momento presente. Antigamente, assinávamos o jornal, que saía quentinho do forno na manhã seguinte aos acontecimentos. Líamos as colunas e comentávamos surpresos as notícias. Levávamos o matinal para perto dos nossos e líamos em voz alta, entre divertidos ou incrédulos, aquilo que nos tinha mais chamado a atenção. Ao fechar o periódico, nossos dedos estavam sujos de tinta da imprensa.

Mas tudo muda, e nada se transformou tanto e em tão pouco tempo quanto a tecnologia. Nós, que tivemos de pegar fila para falar em orelhão, nos deparamos hoje com tablets, computadores e celulares cada dia mais sofisticados. Onde quer que vamos, quase cem por cento das pessoas está com os olhos vidrados na tela, esquecendo o que há ao redor. Eu não me eximo também desta responsabilidade.

Os serviços essenciais são resolvidos em minutos: banco, compra em supermercado, farmácia, roupas e a resolução de problemas que antes nos faziam sair, andar e ver gente, agora são solucionados com um simples apertar de teclas dentro de casa. Isso acaba acarretando dificuldades em resolver conflitos reais e nos faz isolar socialmente. Vemos nas telas mulheres e homens com rostos impecáveis e corpos esculturais, com “vidas perfeitas” que nos trazem, muitas vezes, a sensação de imperfeição absoluta. Isso leva muitos de nós à não aceitação da própria imagem e nos faz acreditar que só a nossa vida apresenta dissabores.

As pessoas pararam de se olhar e de se perceber. Queremos tudo resolvido na hora; estamos sem paciência para nada. Onde ficaram o sorriso ou a conversa fiada com quem está ao nosso lado? Onde foram parar as visitas familiares para um bom papo com café e bolo? Onde foram parar o toque fraterno e o abraço amigo? Quem está ao nosso lado quando precisamos? Quem nos conforta na hora da tristeza? Quem nos dá um puxão de orelha ou nos afaga?

Nunca estivemos tão unidos e, ao mesmo tempo, tão distantes, o que traz a muitos a verdadeira solidão. Temos muitos amigos em redes sociais, e isso acaba criando uma ilusão de companhia que pode mascarar a carência de conexões reais e profundas.

Não sou contra a tecnologia, muito ao contrário. Sabemos da necessidade de estarmos vinculados a um mundo que se modifica a cada milésimo de segundo; no entanto, precisamos encontrar o meio-termo entre o ser tecnológico e o ser humano, entre a conexão virtual e a real. Quem sabe, assim, possamos ter um pouco mais de paz interior e viver de maneira plena a vida que nos foi concedida.

Íria de Fátima Flório é sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras e do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba, autora do livro infantojuvenil “A Turma do Tico e o Mistério do Livro Inca”.