Aeróbica cultural

Por Cruzeiro do Sul

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Pedestre emérito, nas andanças diárias pós graduei-me em manhas de calçadas, ruas e praças.

Meus pés apreenderam o rústico dos chãos, de ladrilhos e lajotas mal colocados, “pula-pulas” inimigos de cadeiras de roda, desníveis e outros empecilhos costumeiros, velhos conhecidos daqueles que insistem em deambular. Há trechos e regiões excelentes; outros, contudo, sofríveis; alguns, desafiadores!

Aprendi a conviver com ciclistas. Ícaros em baixa altitude. Assustadora porcentagem deles dispensa a faixa exclusiva. Preferem “contramão” e calçadas, onde tangenciam pedestres incautos. Aparentam ignorar ou desconhecer que devem acompanhar o fluxo de veículos. Já a preferência pelas calçadas escapa a qualquer teste de sensatez.

Os pedestres aprendem a se cuidar. O impacto de um guidão de bicicleta enlouquecida consegue fraturar uma costela e ou perfurar um pulmão — depende do azar. O dano para o ciclista também assusta: dentes e mandíbula quebrados; fraturas diversas.

Outros perigos habitam as ruas!

As faixas “vivas”! Vermelhas. Impressiona a quantidade de condutores daltônicos. Funcionam bem quando a massa humana compacta impõe-se. No velho estilo “unidos venceremos”. Vê-se muito na Álvaro Soares.

As “sem elevação” ordenam cuidado! Nas largas avenidas, três pistas de rolamento, a situação complica. O gentil motorista da primeira pista para. O pedestre avança. No meio da travessia visualiza a terceira pista. Nela, aproxima-se um condutor desprovido da mínima vontade de parar! Impasse: voltar ou prosseguir? Flechas perigosas entre as filas, os ases das motocicletas...

As “elevadas”, eficientes, forçam a redução da velocidade. O pedestre sente-se mais seguro para se arriscar. Uma ala de impacientes motociclistas aumenta a adrenalina.

De fato, os motociclistas, sempre em flagrante atraso, agravam todas as situações. O pedestre percebe-os de olho no sinal amarelo, mão no acelerador, prestes a disparar. Cada milissegundo importa! Todo dia é uma batalha de sobrevivência.

A travessia de avenidas e ruas movimentadas, contudo, contempla menos riscos do que em algumas esquinas, onde listras brancas indicam a “faixa de insegurança”.

O sinal abre para o pedestre. Este, cauteloso, avança. Com o canto do olho percebe a pessoa atrasada, que “aproveita” para a conversão. Mas, lá está ele atrapalhando o tráfego: no meio da faixa! A miúdo, sob o manto da invisibilidade.

Invisível e lerdo? Vira manchete!

Cruzamentos complexos, semáforos de três tempos, determinam paciência redobrada ao pedestre. Precisará de três trajetos no zigue-zague da travessia. Em cada um, adequa-se ao tráfego e aproveita improváveis gentilezas dos condutores, a cujas urgências ajusta-se a sincronia da sinalização.

Mas, retornemos às calçadas, espaço, por excelência, reservado aos pedestres. Muitas, hoje, transformadas parcialmente em área de estacionamento para lojas e clínicas, por exemplo.

As condições do caminhar mostram-se particularmente difíceis quando o andante se depara com árvores gigantescas, volumosas, ricas em raízes que emergem do solo, grossas, desafiadoras, roliças, em graciosos arabescos. Avançam e destroem o que encontram à frente, inclusive os pisos.

Aos poucos, dominam todo o espaço trafegável. O pedestre avança equilibrando-se; cuida para não tropeçar ou escorregar. Com chuva, pior. Muletas, andadores, cadeiras de roda? Nem pensar!

As raízes invadem muros e áreas internas da propriedade contígua. A árvore plantada em local inadequado embeleza e produz sombra. Substituí-la? Como?!

A topografia sorocabana soma-se aos eco-obstáculos. Cidade pródiga em ladeiras. Notáveis desafios arquitetônicos combinar rampas e degraus. Com chuva, terror. Mais uma vez, infeliz o caminhante com alguma limitação física. Entende-se a causa de tantas torções de tornozelos ou coisa pior.

Contudo, no caminhar urbano aspira-se saudável aeróbica psicossocial. Por meio dele, absorve-se muito do clima social da cidade. Em ruas, avenidas e praças os costumes, a maneira de ser, as principais características indicadoras da “sorocabanice” transparecem em incontáveis e curiosos detalhes.

Manobras dos veículos, cumprimentos, gentilezas, grosserias, passos ágeis dos apressados, visual dos estabelecimentos, propagandas, grafites, pessoas à margem da sociedade produtiva, policiamento, ambulâncias, motocicletas destruidoras de tímpanos ...

Infinitos estímulos visuais, olfativos, auditivos compõem o caleidoscópio cultural de uma boa caminhada.

Por isso tudo, caminho! Há algo de terapêutico em caminhar ao acaso. Faz-me “sentir em casa”.

O caminhar, contra o vento ou não, com ou sem parada para um café, transmite aquela “alegria, alegria”, que o Caetano dos bons tempos cantou. Agora, atento e com documento...

José Osmir Fiorelli, é engenheiro, psicólogo, escritor, e sócio emérito da Academia Sorocabana de Letras