O fim da arquitetura modernista
A arquitetura modernista teve seu revés em solo norte-americano anos após a devastação causada na Europa pela Segunda Guerra Mundial (1939-45). Durante a reconstrução das cidades destruídas, porém, foi ela uma das alternativas para recuperar a vida urbana europeia.
Essa arquitetura teve declarado seu fim nos Estados Unidos, após o fracasso do conjunto habitacional Pruitt-Igoe (1952-72) — foto —, projetado e construído pelo arquiteto Minoru Yamazaki (1912-86), ao norte de Saint Louis (Estado do Missouri). Apesar de ter seguido os princípios de Le Corbusier e dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (o último foi em 1959), mencionado conjunto habitacional não atingiu a finalidade de assegurar conforto e segurança aos condôminos.
O projeto de Pruitt-Igoe resultou da Lei da Habitação (1949) promulgada por Harry Truman, que autorizava a construção de bairros planejados à classe média nos subúrbios, demolir favelas e cortiços próximos do centro e vender as áreas à iniciativa privada para a construção de centros comerciais e de conjuntos habitacionais verticalizados à população pobre da cidade.
O referido tinha 33 edifícios de 11 andares e 2.870 apartamentos, distribuídos em 57 acres (aproximadamente 230.700 metros quadrados); havia ruas à circulação de pessoas e para veículos, áreas para creches, lavanderias e playground. A Administração Pública Municipal pretendia abrigar doze mil pessoas de famílias selecionadas mediante entrevistas, das quais as escolhidas assinavam os contratos de aluguel.
Esses contratos impunham severas regras aos inquilinos, os quais não podiam ter telefone nem televisão. Referida Administração Pública arrecadava os aluguéis para custear as despesas; como eram elevadas e não subsidiadas, a diferença era rateada entre os inquilinos, que também dependiam de autorização daquela administração para qualquer serviço de reforma, reparos ou substituição de peças ou equipamentos danificados. As benesses eram escassas e limitavam o conforto e a segurança.
O ambiente no conjunto habitacional se degradou e foi dominado pelos criminosos (consumo e tráfico de drogas, estupros, homicídios, invasões de domicílios, roubos etc.). Em 1972 foram demolidos os primeiros e, em 1976, os últimos edifícios de Pruitt-Igoe. Diante deste trágico fim, o historiador e crítico da arquitetura, Charles Jenks (1939-2019), atribuiu ao projeto o símbolo do fracasso da arquitetura moderna (ou modernista). Estava aberto o espaço ao pós-modernismo para ocupar o lugar daquela.
Conclusivamente, a declaração de Charles Jenks contribuiu para pôr fim à arquitetura modernista após ter atribuído ao projeto, e não à administração, a responsabilidade pelo fracasso do conjunto habitacional Pruitt-Igoe. O efeito foi a escolha da arquitetura pós-modernista com o propósito de se distanciar da modernista, eivada de críticas que a obscureceram no caminho da história. Nada a mais.
Marcelo Augusto Paiva Pereira é arquiteto e urbanista.