A simbologia das cores na Terra Rasgada
Aos quarenta anos, encontrei-me em minha cidade. Residente em Sorocaba desde 2023, sinto hoje um apego que nunca nutri por Osasco, onde nasci, ou por Assis, onde vivi por duas décadas, formei-me e construí família. Talvez o motivo seja minha aversão ao tumulto da primeira e ao calor da última.
Ao contrário do que dizem as queixas locais, considero o clima de Sorocaba termicamente confortável na maior parte do ano. A cidade me traz felicidade; sua história secular me encanta. Antes, figuras como Varnhagen eram apenas nomes de críticos literários que estudei na pós-graduação; o tropeirismo era um mito remoto e a Estrada de Ferro Sorocabana apenas uma entre tantas empresas históricas.
Hoje, a cada passeio no Pátio Cianê, respiro a História que exala das paredes da antiga fábrica de tecidos. Fui carinhosamente abraçado pela Academia Sorocabana de Letras e pelo Instituto Federal de São Paulo. Contudo, esse idílio padece de entreveros mal resolvidos. Abordarei aqui apenas um deles: o trânsito.
O alfabeto das cores
O problema não é a quantidade de veículos ou a falta de espaço, mas sim a aberrante semiótica que impera em nossas ruas. O forasteiro, cidadão brasileiro médio, chega a duvidar de sua instrução primária ao circular por aqui.
Na infância, aprendemos a correspondência inequívoca dos semáforos: verde é siga, amarelo é atenção e vermelho é pare. Tais significados tornaram-se metáforas do cotidiano: o chefe “dá sinal verde”, ou a situação financeira “está no vermelho”.
Em Sorocaba, tive que reaprender o básico. O que aprendi no resto do Brasil, aqui, é inútil.
Para os novos na cidade, deixo um guia prático da “Semiótica Sorocabana”:
* O Vermelho: Não possui caráter proibitivo. Deve-se parar apenas se você viu exclusivamente o vermelho ou se já houver carros cruzando a pista. Se você presenciou a transição do amarelo, o vermelho torna-se apenas uma “sugestão” de parada, dependendo do movimento.
* O Amarelo: Significa “acelere o máximo que puder”. É o estágio preparatório para ignorar o vermelho subsequente, servindo também como um sinal para que os carros de trás não diminuam o passo.
* O Verde: Significa “atenção”. Se você estiver parado no cruzamento aguardando a partida, não confie no verde; os motoristas da via perpendicular podem ignorar a “sugestão” do sinal vermelho deles.
É curioso observar como o motorista local, antes de avançar no verde, busca o olhar do condutor na via perpendicular. Somente após essa confirmação visual — um pacto de sobrevivência silencioso — é que se parte com alguma confiança.
O “Thoreau tupiniquim”
Gostaria de tratar das setas (esse item opcional nos veículos modernos) ou dos “flanelinhas”, essas almas caridosas que oferecem segurança a baixo custo. Contudo, pelo espaço limitado, deixo aqui apenas minha estima à força de personalidade do motorista sorocabano. Como um “Thoreau tupiniquim”, ele não se dobra a regras e convenções sociais, preferindo ditar sua própria gramática urbana nas ruas da Terra Rasgada.
Luiz Fernando Martins de Lima é professor, doutor em Letras pela Unesp e sócio efetivo da Academia Sorocabana de Letras.