A curva no modernismo
Desde o surgimento da corrente arquitetônica modernista, no final do século XIX, seus princípios ou postulados foram fundamentados na linha reta, ortogonal, com a qual os espaços deviam trazer à lume a ciência, a modernidade e a técnica que afloravam na Europa e nos Estados Unidos.
Na virada do século XIX para o XX as sociedades europeias e norte-americanas acompanharam a evolução do conhecimento e das ciências, inclusive sob o aparato industrial e urbano. As indústrias ditavam o progresso e as cidades o refletiam nas modificações urbanas, das quais a arquitetura foi influente.
Junto aos pioneiros, o finlandês Alvar Aalto (1898-1976) entendia artificial e austera a linha reta, e inovou ao incluir a curva nos projetos modernistas. A ele, a linha curva era própria da natureza e definia ambientes mais próximos dela e do ser humano, enquanto as retas davam aos ambientes mais artificialidade e distanciamento da natureza. Os projetos do Sanatório de Paimio (1929-32) e a Biblioteca Viipuri (1931-35) são exemplos dessa inovação.
No Brasil, Oscar Niemeyer (1907-2012) incluiu a linha curva nos projetos modernistas quando projetou e construiu a Capela de São Francisco de Assis (1943-45), no Bairro da Pampulha, em Belo Horizonte. A ele, as curvas representavam a natureza geográfica do Estado de Minas Gerais e do nosso País.
Le Corbusier (1887-1965), um dos pioneiros da arquitetura modernista, também incluiu a linha curva em seus projetos. A Capela de Ronchamp (1950-55) e o Palácio da Assembleia em Chandigarh (1951-62), tiveram-na incluída, para diminuir o efeito austero da linha reta, dura, inflexível. No projeto da Villa Savoye (1928-31), porém, a linha curva constou do andar térreo e em parte do terraço-jardim, embora o projeto fosse representativo dos cinco pilares do modernismo, criados e difundidos por aquele arquiteto.
Nos Estados Unidos, Frank Lloyd Wright (1867-1959), um dos pioneiros, inovou ao projetar o Museu Solomon R. Gugguenheim — foto — (1956-59), em Nova York. Assim fez com curvas em caracol ascendente, que compuseram o caminho condutor do visitante ao andar mais alto e, em continuidade, para o andar térreo. Uma obra-prima do modernismo.
Quanto a Ludwig Mies van der Rohe (1886-1969), permaneceu purista aos postulados do modernismo. Continuou a desenhar os projetos com linhas retas e criou, junto a Walter Gropius, Le Corbusier e outros, o estilo internacional (cunho minimalista), derivado da arquitetura modernista.
Conclusivamente, a linha curva foi incluída na arquitetura modernista para diminuir o efeito austero e distante da natureza, e a esta dar maior proximidade com vistas ao melhor conforto, inclusive psicológico, aos usuários dos espaços para que se sintam num ambiente moderno e acolhedor. Nada a mais.
Marcelo Augusto Paiva Pereira é arquiteto e urbanista.