Downgrade: superando o drama da escassez

Por Cruzeiro do Sul

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Dentre as muitas palavras inglesas que vêm ganhando espaço na língua popular brasileira, a expressão downgrade certamente é uma delas. Em geral, tem sido utilizada para indicar um rebaixamento de categoria, a troca por uma versão inferior ou até mesmo a necessidade de diminuir o padrão de vida devido a algumas contingências.

A escassez que leva a esse movimento é mais do que falta de recursos. É a sensação persistente de estar em déficit de reconhecimento, de segurança ou até mesmo de perspectivas. Segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, a escassez gera um sentimento de exclusão social bastante complicado, que estremece convicções saudáveis e atinge a própria identidade.

No livro de 2º Samuel, há um personagem que enfrentou a escassez de forma abrupta: seu nome é Mefibosete. Sua história teve início em um contexto muito privilegiado, pois era filho de Jônatas e neto de Saul — primeiro rei do período do reino unido de Israel. Nasceu em berço de ouro e passou sua primeira infância repleto de benefícios, desfrutando do bom e do melhor.

Esse cenário positivo desapareceu quando, aos cinco anos, seu pai e seu avô faleceram em batalha e, durante a fuga, ele sofreu um acidente que o deixou aleijado. Sem nenhum dos privilégios de antes, foi morar em uma cidade chamada Lo-Dobar, bem longe do palácio, cujo nome pode, curiosamente, significar “sem pasto”, “sem perspectiva” ou “sem coisa alguma”. Ali, foi acolhido na casa de Maquir, filho de Amiel.

Sua sorte começou a mudar quando Davi, o novo rei de Israel, lembrou-se de uma promessa feita a Jônatas, que envolvia a disposição de ser bondoso para com a sua descendência, em razão da amizade que desenvolveram. Chamado à corte, Mefibosete prostrou-se diante do rei, temendo por sua vida, mas Davi lhe disse: “Não tenha medo!”. Devolveu-lhe as terras de seu avô e ofereceu-lhe assento permanente à sua mesa.

Com essa história, aprendemos algumas lições muito importantes. Em primeiro lugar, que, em meio à escassez, não estamos sozinhos. Assim como Deus providenciou um lar para Mefibosete em Lo-Dobar, Ele tem providenciado um refúgio para nós: um lugar onde, apesar das circunstâncias, podemos ser acolhidos e nos sentirmos seguros. Bons amigos têm o poder de transformar desertos em oásis.

Em segundo lugar, aprendemos que Deus tem poder para mudar a nossa sorte. Assim como restituiu a Mefibosete as terras de seu avô, Ele pode nos surpreender no futuro, fazendo coisas novas. A consciência disso cura a visão pessimista sobre a existência, que tende a nos convencer de que não existe nada novo debaixo do sol, de que vivemos uma espécie de sina irreparável.

Em terceiro lugar, aprendemos que Deus nos oferece lugar à sua mesa. Por meio desse simbolismo, somos convidados a crer que, se Ele não muda algumas realidades ao nosso redor — assim como não mudou a condição física de Mefibosete —, Ele nos oferece o alimento necessário para lidarmos com as adversidades de forma mais tranquila e resiliente.

A misericórdia de Davi para com Mefibosete tipifica a bondade de Deus para conosco, exercida mediante a instrumentalidade de Jesus. Essa bondade independe de qualidades ou virtudes que O impressionem — é fruto da maravilhosa graça de Deus. Que essa graça alcance você e sua família, trazendo companhia, esperança e acolhimento na hora da adversidade.

Renato de Oliveira Camargo Junior é teólogo formado pelo Seminário Presbiteriano do Sul, pós-graduado em Liderança pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em Ministério pelo Missional Trainning Center, diretor do Centro de Treinamento para Plantadores de Igrejas e pastor Plantador da Comunidade Presbiteriana Campolim, em Sorocaba.