Monumento tumular do Visconde de Porto Seguro
Sinto-me honrado em registrar algumas reflexões sobre este monumento que, apesar de sua simplicidade, possui representatividade nacional. Trata-se, sem qualquer dúvida, do principal monumento histórico de Sorocaba, destinado a acolher os restos mortais daquele que ficou conhecido como o Pai da História do Brasil.
Francisco Adolfo de Varnhagen nasceu em Sorocaba, sendo, portanto, sorocabano, filho de um alemão e de uma mãe portuguesa — esta última informação ainda sem confirmação documental. Embora tenha vivido pouco em sua terra natal, tornou-se um homem do mundo: estudioso de arquivos, diplomata e intelectual de projeção internacional.
Foi o primeiro a escrever a história do Brasil sob um prisma científico, razão pela qual recebeu o epíteto que o consagrou. Seus estudos, voltados à valorização dos fatos e personagens de nossos ancestrais, forneceram as bases fundamentais da identidade nacional brasileira.
Orgulhoso de sua produção cultural, Varnhagen valorizava os títulos que recebera, como o de “Visconde de Porto Seguro”, mas fazia questão especial de ressaltar, sobretudo em sua obra maior, a condição de “natural de Sorocaba”. Seus contemporâneos, entretanto, muitas vezes o consideraram português, e seu reconhecimento oficial como brasileiro exigiu enfrentamentos e disputas, até que o Imperador Dom Pedro II lhe concedesse tal distinção.
Sua trajetória revela grande capacidade intelectual e produtiva, o que, inevitavelmente, também lhe rendeu inimizades e invejas. Sua atuação ultrapassou o campo da história, alcançando a literatura, a política e a diplomacia, sempre a serviço do Brasil em diferentes regiões do mundo.
Como historiador positivista, baseado rigorosamente em documentos, suas análises por vezes causavam desconforto. Para ele, o passado era imutável e essencial para compreender quem somos. O presente exigia ação, e, como diplomata, assim atuou — nem sempre de modo conveniente aos interesses de seus críticos. Em obras como “Guerra contra os holandeses”, projetava reflexões que dialogavam com conflitos posteriores, como a Guerra do Paraguai, além de pensar o futuro do Brasil.
Chegou a propor a reorganização territorial do País em departamentos de dimensões semelhantes e indicou, inclusive, o local onde deveria ser construída uma nova capital, à qual deu o nome de Imperatória — hoje conhecida como Brasília.
Seu amor por Sorocaba era profundo. Em uma de suas últimas visitas, já consagrado como intelectual de grande projeção, esteve na Real Fábrica de Ferro de São João do Ipanema e indicou ao então diretor Mursa o local onde desejava que fosse erguido um monumento em sua homenagem. O monumento foi construído e permanece até hoje naquele ponto, de acesso difícil, porém de visão esplêndida, com horizonte amplo e uma cruz de ferro que remete tanto à atividade siderúrgica de seu pai quanto ao seu amor pela terra natal.
Varnhagen faleceu em Viena, na Áustria, exercendo o cargo de ministro plenipotenciário do Brasil. Posteriormente, seus restos mortais e os de uma de suas filhas foram levados por sua esposa, Carmen Ovalle y Vicuña, para Santiago, no Chile.
Em 1978, ano do centenário de sua morte, por iniciativa do prefeito José Theodoro Mendes, interpretou-se seu orgulho em ser “natural de Sorocaba” e o desejo de um monumento no Morro de Araçoiaba como vontade de aqui ser sepultado. Seu translado foi então realizado. Ao abrir o túmulo, constatou-se que os restos mortais de sua filha Tereza estavam junto aos seus. Por questões burocráticas, ambos foram trazidos e depositados em monumento localizado na rotatória da praça Edmundo Valle, em frente à então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Sorocaba.
Durante anos, o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba realizou ali seu culto cívico anual, com a presença de escolares. Contudo, o local apresentava riscos, devido ao intenso tráfego de veículos ao redor do monumento.
Em 2016, por ocasião dos 200 anos de nascimento de Francisco Adolfo de Varnhagen, o Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba, em parceria com a Prefeitura Municipal de Sorocaba e a Fundação Ubaldino do Amaral, promoveu a transferência do monumento para um local mais adequado. O processo de exumação e separação dos restos mortais foi conduzido com rigor científico por especialistas em arqueologia e medicina legal, contando com a atuação da professora Valdirene do Carmo Ambiel, do médico-legista Luiz Roberto Fontes e do perito criminal odontológico Flávio Veras Nunes de Oliveira, além do apoio do empresário Laelso Rodrigues (in memoriam) e do dentista Luiz Antonio Zamuner.
A solenidade cívico-fúnebre contou com expressiva participação de autoridades, entre elas Dom Bertrand Maria José de Orléans e Bragança. Na sequência, realizou-se um colóquio comemorativo, com a participação da Academia Paulista de História, da Fundação Visconde de Porto Seguro, da Fundação Ubaldino do Amaral, do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e do Instituto Martius-Staden.
Atualmente, o monumento encontra-se em local nobre, diante do mais antigo patrimônio histórico de Sorocaba: o Mosteiro de São Bento. Infelizmente, o monumento foi alvo de vandalismo, com o furto de sua placa de bronze. O episódio reflete um problema recorrente no trato do patrimônio histórico. Mais grave ainda foi a substituição da placa por outra de material plástico, com inscrição incompleta, descaracterizando o conjunto.
Esse fato nos leva a uma reflexão inevitável: quem pratica a ação mais danosa ao patrimônio — aquele que o subtrai ou aquele que, sob o pretexto de preservá-lo, o descaracteriza? A resposta fica a cargo de cada leitor, à luz de princípios éticos, morais e do exemplo que desejamos legar às futuras gerações.
Assim devem ser tratadas as representações simbólicas daqueles que dedicaram a vida ao bem comum. Neste caso, de quem contribuiu decisivamente para a construção da identidade do ser brasileiro e sempre se orgulhou de ser “natural de Sorocaba”.
Adilson Cezar é professor e presidente do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba (IHGGS).