A pororoca
A narrativa de que a direita brasileira está “dividida” reaparece ciclicamente, quase sempre com ares de diagnóstico político, mas carregando um subtexto claro: induzir a sensação de fraqueza, dispersão e inevitável derrota. No entanto, essa leitura ignora a dinâmica real das forças políticas que compõem o campo conservador. O que existe não é fratura — é diversidade de afluentes que percorrem vales distintos, mobilizam públicos distintos e captam energias que nenhuma corrente isolada conseguiria alcançar.
A direita, entendida como bloco que compartilha uma visão de país — defesa da vida, liberdades, responsabilidade fiscal, ordem institucional e rejeição ao projeto hegemônico da esquerda — não está rompida nesses pilares. O que há são caminhos variados, lideranças distintas, estilos próprios de comunicação e estratégias diferenciadas. Todas, porém, convergem para o mesmo estuário eleitoral: o segundo turno.
É justamente aí que a metáfora dos rios se impõe. Um grande rio não nasce pronto. Ele se forma da somatória de córregos, riachos, igarapés, ribeirões e caudais maiores. Cada um corre por seu leito, dialoga com seu território, coleta águas específicas de seu vale — águas que outro afluente jamais captaria. Na política, essa lógica é ainda mais evidente. Base social não é homogênea, nem deve ser. A força está na variedade das fontes.
O equívoco fatal seria tentar transformar todos esses afluentes em um único curso já no primeiro turno. Um rio único, antes de tempo, perderia capilaridade. Ao invés de multiplicar presenças, reduzir-se-ia a um canal estreito incapaz de alcançar regiões e eleitores plurais. A unidade precoce soa sedutora, mas produz anemia política: deixa milhões de votos potenciais pelo caminho — votos que só existem porque cada liderança, cada vertente, cada grupo, percorre seu próprio território ideológico.
Por isso, a tese da divisão é, em grande medida, uma armadilha retórica. Ela busca criar ansiedade, induzir rearranjos artificiais e minar a autoconfiança de campos que, historicamente, se fortalecem justamente pela pluralidade. O que a direita precisa não é de fusão antecipada, e sim de autonomia coordenada.
No primeiro turno, cada afluente deve seguir captando sua água. Deve ocupar seus espaços, mobilizar seu público, estruturar sua mensagem e, acima de tudo, crescer dentro do seu vale natural. Não há contradição nisso. Há estratégia. O que importa não é uma aparência inicial de unidade, mas o volume final de água que chega ao encontro das correntes.
E, quando chega o segundo turno, todos esses cursos se encontram. O resultado não é soma — é multiplicação. É a formação de um rio caudaloso, que avança com força irrefreável, empurrado pela convergência de energias que nenhum afluente isolado seria capaz de acumular. É a pororoca: o choque irresistível entre a maré política e a força coletiva de todas as águas que vieram de longe, vindas de muitas direções, mas guiadas pelo mesmo destino.
A vitória não nasce da uniformidade, mas da confluência. E é justamente essa confluência que transforma pequenos cursos em uma onda política impossível de represar.
Marcos Cintra é doutor em Economia por Harvard e professor titular da Fundação Getúlio Vargas. Foi vereador, deputado federal, secretário Especial da Receita Federal, presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), secretário municipal em São Paulo e São Bernardo do Campo e io de São Paulo e subsecretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado de São Paulo.