Superando os dramas da morte moderna
Até pouco tempo atrás, a morte biológica figurava como o grande vilão da sociedade. Naquele tempo, quando alguém queria se referir a algum parente ou amigo que estava com câncer, nem mesmo citava o nome dessa doença. Normalmente, dizia: “Ele está com aquilo...” ou, no máximo: “Ele está com C.A.”. Tudo isso porque o câncer era visto como uma doença incurável e a morte, como o maior inimigo de todos.
Atualmente, devido ao advento da cultura existencialista, que tende a reduzir as nossas preocupações ao que acontece no aqui e no agora, existem outros temores que assombram mais a sociedade contemporânea do que a própria morte. Refiro-me à perda de um relacionamento amoroso, à perda da relevância profissional, à perda do dinheiro, à perda do sentido da existência, dentre muitos outros.
Um dos filósofos que mais tem se empenhado em analisar esse fenômeno é o polonês Zygmunt Bauman. Em sua obra Vida Líquida, ele afirmou: “Na sociedade de consumidores, o maior medo não é o da morte física, mas o de ser excluído, de tornar-se inútil, irrelevante ou descartável.” E, em Vidas Desperdiçadas, reiterou: “Não é o fim da vida, mas o fim de uma vida com significado social.”
No Segundo Livro de Samuel, contido na Bíblia, encontramos a história de um homem que também viveu os dramas da morte social. Seu nome era Ittaí. Ele havia sido comandante militar de Gate, cidade dos filisteus, mas, por alguma razão, acabou exilado em Jerusalém. Nessa cidade, precisou lidar com a solidão típica de quem é estrangeiro.
Estrangeiros normalmente estão longe da família, falam com sotaque, possuem uma cultura diferente, não contam com uma rede de relacionamentos que funcione como suporte e, por mais tempo que permaneçam no mesmo lugar, tendem a ser tratados como forasteiros. Certa vez, uma tia da minha esposa, após décadas vivendo nos Estados Unidos, lamentou a tristeza por não se sentir completamente acolhida naquele país.
É exatamente por conhecer a dor da solidão de um estrangeiro que Deus ordenou ao seu povo que os amassem (Deuteronômio 10:1819), da mesma maneira como também deveriam amar os pobres, os órfãos e as viúvas, tidos como invisíveis na sociedade daquele tempo. O descompromisso com essas pessoas revela o descompromisso com o próprio Deus.
Não obstante ao seu sofrimento, Ittaí não se deixou paralisar. Diante da solidão, não agiu com autocomiseração, nem muito menos se encerrou vivo num mausoléu. Pelo contrário, de maneira corajosa, procurou o rei Davi e pediu que o inserisse em seu exército. Davi até tentou dissuadi-lo, a fim de protegê-lo, mas ele insistiu e foi devidamente recrutado.
O que isso significa? Significa que, em vez de se deixar levar pelo sentimento de solidão e morrer para a vida, Ittaí decidiu dedicar-se a uma causa maior do que ele mesmo, uma causa que levasse adiante o nome do verdadeiro Deus e contribuísse para a expansão do Seu Reino sobre a terra. Isso, sem dúvida alguma, é referencial de resiliência e perseverança para cada um de nós.
Você também tem se sentido solitário? Por qual motivo? Tem enfrentado um divórcio? Foi alvo de algum tipo de infidelidade? Foi desligado da empresa onde trabalhava? Seja qual for o motivo, lamente, mas não paralise. Chore, mas não desista. Há um mundo de possibilidades à sua frente. Por isso, faça a opção por gastar sua vida associando-se a pessoas que valem a pena e a causas que são maiores do que você.
O Deus que se fez homem não é apenas companhia para aqueles que estão sós; é doador da vida para aqueles que não sentem mais a vida pulsando em suas veias. Resista aos dramas da morte moderna. Faça a opção pela vida. Afinal de contas, esse é o bem mais precioso que você tem. E, por mais que os outros não a valorizem, isso não significa que ela não tenha valor.
Renato de Oliveira Camargo Junior é teólogo formado pelo Seminário Presbiteriano do Sul, pós-graduado em Liderança pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em Ministério pelo Missional Trainning Center, diretor do Centro de Treinamento para Plantadores de Igrejas e pastor Plantador da Comunidade Presbiteriana Campolim, em Sorocaba.