O Mosteiro de São Bento
O conjunto arquitetônico formado pelo Mosteiro de São Bento e pela Igreja de Sant’Ana constitui o mais antigo vestígio material da história de Sorocaba. Antes dele, registra-se apenas o Sobradão erguido por Baltazar Fernandes, fundador do povoado, do qual não restou qualquer vestígio físico ou referência material no local. A relevância histórica, cultural e simbólica desse conjunto torna desnecessários comentários adicionais quanto ao impacto irreparável que qualquer dano poderia lhe causar.
O estudo de suas origens, entretanto, continua a despertar interesse e reflexões, sustentadas por documentos históricos e pela necessidade de compreender os processos que moldaram a formação da cidade. Baltazar Fernandes, bandeirante paulista nascido em 1580, cresceu na povoação de Sant’Ana de Parnaíba, sendo filho da fundadora Susana Dias e do português Manoel Fernandes Ramos. Como outros de sua geração, participou de expedições bandeirantes, inclusive daquelas que resultaram na destruição de parte das Missões Jesuíticas no sul do atual território brasileiro.
No contexto colonial, coexistiam diferentes projetos de ocupação. Enquanto os jesuítas adotavam práticas de catequização dos povos indígenas, mantendo-os sob regime de servidão, os sertanistas, movidos pela busca de riquezas, viam o indígena como mercadoria. Essas divergências marcaram a formação de núcleos como Sant’Ana de Parnaíba e São Paulo, que se consolidaram como centros estratégicos de expansão territorial.
Durante o período da União Ibérica, as distinções entre portugueses e espanhóis tornaram-se menos evidentes, e as fronteiras territoriais perderam importância formal. Com o fim da monarquia dual e a restauração da Coroa Portuguesa, ocorreram tensões políticas significativas, como a Aclamação de Amador Bueno da Ribeira, em 1641, episódio que teve apoio popular, mas foi prontamente recusado pelo aclamado, que buscou refúgio junto ao Mosteiro de São Bento, em São Paulo.
Nesse cenário de instabilidade, Baltazar Fernandes, já em idade avançada, transferiu-se para sua sesmaria em Sorocaba, onde iniciou a construção de seu sobrado e estabeleceu um núcleo populacional relevante. A localização estratégica, próxima a um ponto de travessia do rio Sorocaba, favoreceu o desenvolvimento do povoado. Com o declínio da Vila de São Felipe e a ascensão do núcleo sorocabano, Baltazar demonstrou a viabilidade de Sorocaba ao ampliar o número de moradores e estruturar o espaço urbano.
Em 1661, Sorocaba foi elevada à condição de vila, resultado de articulações políticas e administrativas que envolveram o fundador e autoridades coloniais. Pouco depois, Baltazar Fernandes realizou a doação de parte significativa de sua sesmaria aos beneditinos, reconhecendo o papel dessa ordem religiosa na estabilidade institucional da região. Em contrapartida, os monges comprometeram-se à construção do mosteiro, à manutenção da igreja e à oferta de ensino básico às crianças da povoação.
A organização territorial resultante dessa divisão definiu o crescimento urbano de Sorocaba. O traçado original seguiu antigos caminhos indígenas, como o Peabiru, hoje representados por vias centrais da cidade. A Igreja de Nossa Senhora da Ponte, atual Catedral Metropolitana, e a Casa da Câmara e Cadeia constituíram os principais marcos do novo núcleo urbano.
Ao longo do tempo, conflitos e ajustes marcaram a relação entre a população e os beneditinos, culminando em novos acordos no século XVIII, simbolizados pela Santa Cruz da Composição, monumento que preserva a memória desses entendimentos.
A recuperação do Mosteiro de São Bento e da Igreja de Sant’Ana (foto) representa, portanto, a preservação de um patrimônio singular da história sorocabana. Iniciativas recentes de restauro demonstram avanços importantes, embora ainda sejam necessários investimentos contínuos, capacitação técnica e diálogo institucional. A valorização desse conjunto arquitetônico é fundamental para a compreensão dos primórdios de Sorocaba e para o fortalecimento da identidade cultural de sua população.
Renovamos, assim, o convite para que a sociedade acompanhe, valorize e cobre ações efetivas de preservação desse patrimônio, assegurando sua permanência como referência histórica, cultural e educativa para as futuras gerações.
Adilson Cezar é professor e presidente do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba (IHGGS)