Resoluções para um ano realmente novo

Por Cruzeiro do Sul

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O hábito de fazer promessas ou resoluções de início de ano é bastante antigo. Suas raízes estão nas tradições babilônicas de cerca de 4.000 anos atrás, por ocasião de um grande festival agrícola, chamado Akitu. Eles acreditavam que, ao assumirem compromissos morais com os seus deuses, obteriam também o seu favor.

Com o tempo, esse hábito foi adaptado pelos romanos, que atribuíram ao deus Jano (de onde vem o nome janeiro), o primeiro mês do ano. Jano possuía duas faces — uma voltada para o ano findo e outra para o ano novo, abrindo, assim, novas possibilidades. Neste contexto, suas promessas expressavam desejo de mudança.

Atualmente, as resoluções de início de ano têm má reputação. São vistas como ingênuas, frágeis e limitadas. Tudo isto porque, na experiência de muitos de nós, nunca saíram da gaveta ou mudaram alguma coisa significativa no curso da nossa vida. Mas, será que o nosso fracasso desmerece a importância desses compromissos?

Na tradição judaico-cristã, as resoluções pessoais ou comunitárias, independentemente da data em que são firmadas diante de Deus, possuem grande importância. Isto pode ser constatado na experiência de Neemias, um israelita que trabalhava como um funcionário público na corte do rei Artaxerxes, da Pérsia.

Sob autorização do rei, Neemias liderou um importante movimento de mobilização social, capaz de reerguer os muros de Jerusalém, que estavam em ruínas, em apenas cinquenta dias. Mas o trabalho de Neemias não terminou com a reestruturação física da cidade, o mais importante veio depois.

Concluída a obra física, Neemias levou o povo a fazer algumas resoluções diante de Deus, que reestabelecessem os valores de Deus no meio do povo. Assim, revelou a consciência de que uma cidade não se sustenta apenas por estruturas físicas imponentes, mas por um povo empoderado com os valores do seu Deus.

A primeira resolução assumida foi a de obedecer às leis de Deus. Esta resolução não tem sua importância nos dias de hoje como um meio de atrair os favores de Deus, mas como uma resposta direta ao Deus que nos amou primeiro, enviando Jesus Cristo ao mundo para nos salvar. Obediência é a resposta que nos reinventa.

A segunda resolução foi a de influenciar positivamente a vida dos filhos. Hoje em dia, muitos pais, exaustos de tanto trabalhar, têm terceirizado a vocação de influenciarem seus filhos e, dessa forma, têm pagado um preço altíssimo. Limpeza da casa se terceiriza, educação e influência dos filhos, não.

A terceira resolução foi a de guardar o “sabath”. Dentro da cultura judaica, esse era o dia do descanso. O dia de viver sem a preocupação de gerar riquezas, de acumular recursos para se sustentar, porque, em última análise, o sustento vem do Senhor. Sem esse compromisso nos tornamos escravos da máquina opressora capitalista.

A quarta resolução foi a de perdoar as dívidas impagáveis. Muitos de nós temos resistido oferecer perdão aos nossos devedores, crendo que isto é um benefício injusto. No entanto, Lewis Smedes nos alerta para o fato de que a primeira pessoa, se não a única beneficiada pelo perdão, é aquele que o oferece.

A quinta resolução foi de sustentar a obra de Deus. Enquanto algumas espiritualidades por aí defendem a ideia de um Deus que traz prosperidade, a espiritualidade judaico-cristã nos apresenta um Deus que dá “prejuízo”. E quem se renderá a um Deus assim? Aqueles que descobrirem que o Seu valor é maior do que o ouro e que a prata.

As resoluções de Neemias não são instrumentos de autoengano otimista. Não se trata apenas de “quantos quilos quero perder”, ou “quanto dinheiro quero ganhar”. Trata-se de realidades mais profundas, tais como: “Que tipo de pessoa eu quero ser este ano?”. “Que tipo de pai, mãe, profissional, cidadão, discípulo ou amigo?”

Que, neste novo ano, não sejamos prisioneiros, nem da correria que nos leva a viver apagando incêndios por aí, nem da falta de otimismo que nos impede de sonhar com um futuro diferente.

Renato de Oliveira Camargo Junior é teólogo formado pelo Seminário Presbiteriano do Sul, pós-graduado em Liderança pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, doutor em Ministério pelo Missional Trainning Center, diretor do Centro de Treinamento para Plantadores de Igrejas e pastor Plantador da Comunidade Presbiteriana Campolim, em Sorocaba.