O legado de Aluísio de Almeida: patrono da história de Sorocaba
O mês de novembro reserva à história de Sorocaba uma efeméride singular: o natalício do Monsenhor Luís Castanho de Almeida. Nasceu em Guareí, aos 6 de novembro de 1904, há cento e vinte e um anos passados. Foi o primeiro de cinco filhos do coronel Aníbal Castanho de Almeida e da professora Ana Cândida Rolim. Trata-se de uma personalidade de envergadura ímpar na consolidação da história local e, depois de muitas décadas, as suas obras ainda são referência entre os acadêmicos que almejam compreender o nosso passado, as raízes da nossa cultura e os costumes da nossa terra.
No entanto, um fato notório em sua trajetória e que merece destaque diz respeito à sua generosa honestidade intelectual. O jurista dr. Hélio Rosa Baldy, por ocasião da abertura da semana cultural “Aluísio de Almeida” em novembro de 1992, afirmou: “Sim, eu o conheci. Era simples, era humilde e era sábio”. Autor de inúmeras obras, antes de adotar o pseudônimo “Aluísio de Almeida”, pelo qual ficou amplamente conhecido, ainda na década de vinte, ao escrever semanalmente crônicas para o jornal “O Apóstolo” de Botucatu, adotou o pseudônimo “Arnobius”, versão em latim para Arnóbio (284-305 d.C), um apologeta cristão que viveu em Sica Venéria (atual Le Kef), região da Tunísia.
Em 1929, já na cidade de Itararé, funda o jornal “Santa Terezinha” e, em 1930, aos 26 anos de idade, escreve a sua primeira obra: “Gema Galgani”. Acompanhou em vida a Revolução Constitucionalista de 1932, período em que contraiu tifo e teve a sua saúde comprometida, o que resultou em sua vinda para Sorocaba em fevereiro de 1933 como coadjutor da catedral e residente no Mosteiro de São Bento. Sorocaba torna-se um divisor de águas em sua vida e pode-se dizer que foi aqui, na “terra rasgada”, que Aluísio de Almeida teve a sua verdadeira identificação de amor e pertencimento a um povo. O dr. Otto Wey Neto, quando vereador, outorgou-lhe o título de Cidadão Sorocabano e, em seu discurso, realçou em sua deferência: “Sorocaba, por sua Câmara Municipal, entrega-lhe hoje um diploma, mas o seu coração já lhe foi entregue há muito tempo”.
Foi aqui, na “Manchester Paulista”, que ele criou os mais significativos laços sociais e encontrou em seus pares o apoio necessário para que a sua produção literária pudesse se tornar esse grande colosso da história. O apoio foi indispensável, pois em 1937 deu-se início aos sintomas da esclerose múltipla em placas, doença progressiva e incurável, que o acompanharia por muitos anos até o seu falecimento. Portanto, Monsenhor Castanho contava com o auxílio de abnegados amigos, que emprestavam suas mãos e ouvidos para transcrever as suas pesquisas e ideias. Entre estes, podemos citar a historiadora Vera Ravagnani Job, que em seu discurso de posse na Academia Sorocabana de Letras em 1981, ao ocupar a cadeira 33, relatou em homenagem ao seu patrono: “Conversávamos sobre tudo até sobre História. Quando nos despedíamos e marcávamos nova visita, sempre nos dizia: ‘Prefiro que não diga quando vai voltar; se não chegar na hora, ficarei muito ansioso... e em qualquer momento em que chegue, sempre ficarei feliz’”.
Entre as muitas sementes lançadas por suas mãos, foi no ano de 1943 que tomou a iniciativa de fundar um Centro Sorocabano de Letras, espaço que pudesse reunir escritores e intelectuais da cidade. Porém, por diversos motivos, o projeto não prosperou. Em 1954, Sorocaba comemorava o seu terceiro centenário e o Pe. Castanho entendeu ser a ocasião perfeita para constituir um Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba (IHGGS), junto de outros célebres e renomados historiadores. Desígnio este que tem se mostrado próspero e frutífero há mais de setenta anos, revelando-se um bastião das nossas memórias.
Para ele, a arte, a literatura, a história, a geografia e a genealogia, não se tratavam apenas de disciplinas acadêmicas, mas sim de um ato de devoção. Não obstante, é dele a máxima: “Culto das coisas e da gente de Sorocaba para sempre”. Monsenhor Luís Castanho de Almeida nos deixou em 28 de fevereiro de 1981, vítima de uma grave infecção pulmonar. E, por ocasião do seu falecimento, assim destacou o editorial do jornal Cruzeiro do Sul: “Partiste discretamente, em silêncio, quase como quem pede desculpas por ter de ausentar-se”.
Herman da Costa Oliveira é psicólogo, 2º secretário da Academia Sorocabana de Letras e do IHGGS