Antônio Francisco Gaspar: O Guardião da Memória Ferroviária e da Sorocaba Antiga

Por Cruzeiro do Sul

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Antônio Francisco Gaspar, o Antonico, nasceu de origem portuguesa em 21 de novembro de 1891 e faleceu em 2 de setembro de 1972. Sepultado no cemitério da Saudade, em Sorocaba, sua vida foi marcada pelas adversidades comuns às famílias imigrantes e por uma educação europeia do século XIX e começo do XX, aplicada por seus pais, Timóteo Antônio Gaspar e dona Maria Francisca Gaspar.

A chegada a Sorocaba e os primeiros ofícios

Em 1893, Timóteo aportou no Rio de Janeiro, vindo de Portugal com a família. Seguiram pela Estrada de Ferro Central do Brasil até São Paulo e, via Estrada de Ferro Sorocabana, chegaram a Sorocaba, fixando residência no Largo Santo Antônio. A família montou um armazém de secos e molhados até 1899.

Diante do ressurgimento da febre em Sorocaba, a família tentou retornar a Portugal em 1899, mas a peste impediu o embarque em Santos, onde a mãe de Gaspar veio a falecer. Eles retornaram a Sorocaba em 1900. Timóteo, o pai, investiu então em uma fábrica de cervejas, a “Humberto I”.

O jovem Antonico, sempre curioso e corajoso, gastava seu tempo livre investigando lendas urbanas e, na adolescência, foi trovador e cantor de serenatas. Exerceu diversos ofícios, como copeiro no hotel São Vicente, aprendiz de tecelão na fábrica Santa Maria e, entre 1905 e 1908, trabalhou na fábrica de chapéus de Francisco Souza Pereira.

A carreira na Estrada de Ferro

Sua experiência no almoxarifado da Empresa de Energia Elétrica de Sorocaba o levou ao emprego que definiria sua vida: guarda-fios eletricista na Estrada de Ferro Sorocabana. Antonico trabalhou na E.F. Sorocabana de 30 de setembro de 1909 até sua aposentadoria em 1947.

Em 1970, em um artigo no jornal Cruzeiro do Sul, intitulado “Odisseia de um ferroviário”, Gaspar declarou seu amor pela profissão: “Tornei-me eletricista depois de 18 anos de idade. {...] E depois de ser amante dos fios, lâmpadas, motores elétricos, telégrafos e telefones, dedicar-me a ser um escrevinhador de coisas de antanho?”.

O legado literário e histórico

A vocação literária de Antônio Francisco Gaspar o fez publicar 15 livros sobre a Sorocaba antiga e a Estrada de Ferro. Suas primeiras obras incluem Trovadores do Sul, Reminiscências de Ferroviário, A Cruz de Cedro, O mistério da Água Vermelha e Capelas e Capelinhas.

Incentivado pelo diretor da E.F. Sorocabana, Dr. Gaspar Ricardo Junior , ele publicou em 1930 o Histórico do Início, Fundação, Construção da Estrada de Ferro Sorocabana.

Sobre seu livro Minhas Memórias Sorocaba-São Paulo Santos e Vice-versa 1896 a 1909 (1967), Gaspar explicou em linguagem simples: “o motivo que me levou a escrever este livro é salvar do esquecimento tradições e coisas do meu tempo”.

Seus escritos, como notou Jacob Penteado no prefácio de Minhas Memórias..., tratavam o material humano com deliciosa sensibilidade, deixando o coração do leitor repleto de saudade e ternura ao falar dos fantasmas, circos, festas, serenatas e assombrações de Sorocaba.

A obra memorialista de Antônio Francisco Gaspar é fundamental, pois é ela que nos permite compreender a fundo a história de Sorocaba e o legado inestimável da Estrada de Ferro.

Angeles Paredes Toral é sócia efetiva da Academia Sorocabana de Letras.