O arquiteto
O filme “Megalópolis”, dirigido por Francis Ford Coppola e em cartaz desde 1º de novembro nos cinemas do nosso País, inspirou-me a escrever o presente texto devido ao protagonista ser um arquiteto, que almejava por uma metrópole melhor e revolucionária, num enlace entre a utopia e a realidade urbana.
Referido arquiteto tinha perspectivas de uma metrópole mais acolhedora, fundada num desenho orgânico e construída com um material inventado por ele, chamado Megalon, que se fundia com a matéria e recuperava a anatomia do ser ou do objeto.
A arquitetura orgânica exposta no filme extrapola o conceito ensinado nas faculdades de arquitetura e urbanismo, foge das limitações da interação entre nós e a natureza e atinge o surreal, em que a metrópole se funde com a natureza (da qual também fazemos parte) e com ela interagimos, num simbolismo utópico.
Numa passagem do filme o arquiteto tinha o poder de controlar (ou parar) o tempo pelo tempo que quisesse. Noutra passagem, a namorada disse a ele que a arquitetura é a música congelada. Neste contexto a arquitetura também almeja projetos harmônicos, nos quais a estética é fundamental para a composição da obra, assim como na composição musical. Daí a arquitetura congela a música em sua harmonia e composição e, por consequência, congela o seu tempo de duração pelo tempo que durar a obra construída.
Ao planejar uma metrópole mais acolhedora à população, o arquiteto entendia que a consolidação do projeto para o futuro dependeria da destruição do espaço urbano do presente. O simbolismo contido é o de ruptura temporal, da qual se inicia uma nova era e sociedade em uma nova metrópole, sem quaisquer lastros com as eras anteriores, ambientes urbanos e sociedades antecedentes.
Uma provável alusão ao processo de criação, destruição e recriação das nossas civilizações devidas aos conflitos armados ao longo do tempo; ou, então, ao modernismo, corrente artística que rompeu o historicismo e iniciou um novo modo de pensar e fazer arte, literatura, arquitetura e a criação de novos valores e costumes. Em ambas as hipóteses a elementar que as assemelham é o marco inicial de uma nova era, sociedade ou civilização, instruídas com novos modos de vida, costumes e valores dissociados do passado.
Sabemos que projetar é lançar para a frente e assim fazemos em nossa profissão. Então questiono se nós, assim como aquele personagem, somos utópicos, surreais e congeladores da música e do tempo. Desenhamos acordados com nosso conhecimento técnico, científico, nosso “modus vivendi”, origem familiar e social. Pomos nos projetos nossa subjetividade com a qual vivemos, valoramos e interpretamos a civilização e o mundo. Então, encerro com a dúvida: somos nós, arquitetos e urbanistas, sonhadores e assim simbolizamos o futuro?
Marcelo Augusto Paiva Pereira é arquiteto e urbanista.