Minissérie da Netflix: ‘Corpo em chamas’ (parte 9 de 10)

Por Cruzeiro do Sul

Minissérie da Netflix: ‘Corpo em chamas’

Comecei a escrever na semana passada sobre a relação do crime de Rosa e Albert com o fato de ambos serem policiais.

Há cenas da minissérie em que fogo está presente, como a antever os acontecimentos futuros: fogo da lareira, Rosa que observa carne sendo assada em um mercado, Rosa que imagina Albert sendo destruído pelas chamas em uma cadeira etc. Penso que esses momentos mostram a obsessão de Rosa em matar Pedro (ou mesmo Albert?) ou de eliminar vestígios que possam levar à identificação do cadáver.

Para discorrer sobre a psicologia do policial, passo abaixo a me referir, como fonte acadêmica, à dissertação de mestrado de Guilherme Secotte Nogueira que tem por título “As polícias militares como massas artificiais: hipóteses psicanalíticas acerca do laço policial”.

O engajamento na atividade repressora policial exige do indivíduo a liberação de razoável dose de violência, que é a manifestação da pulsão de morte. Nogueira refere-se a três formas de manifestação da pulsão de  morte nos policiais. A primeira ocorre na relação com os semelhantes, isto é, a agressividade voltada  internamente ao grupo policial de uns contra os outros. Mas essa forma de agressividade normalmente é reprimida, porque, para que um grupo continue vivo e solidário, é necessário conter as manifestações das pulsões agressivas dos seus componentes entre si.

Nogueira apontou mais duas formas de liberação das pulsões destrutivas: a segunda diz respeito à pulsão de morte na relação com outros que não pertencem ao grupo. A contenção desta segunda forma de liberação das tendências agressivas exige um sistema jurídico que atua, dentro da polícia, contra policiais que abusam da violência externamente à corporação. Vemos isso no filme quando o ato violento de Pedro é punido com afastamento não remunerado das atividades policiais ou quando um processo minucioso é conduzido pela polícia para investigar as circunstâncias da morte, por Albert, de um mendigo preso algemado. Rosa também demonstra sua agressividade com os cidadãos transgressores. Ela se diverte quando assiste Albert dispersar um grupo de ambulantes e chega a sacar do revólver para intimidar um imigrante negro, do qual Albert rouba um bracelete para presenteá-la. Albert descarrega sua violência reprimida nos treinamentos, assiste a filmes de lutas.

Por fim, a terceira forma de manifestação da agressividade ocorre quando a pulsão de morte toma o próprio indivíduo como objeto de descarga das tendências destrutivas, ou seja, a agressividade do componente do grupo se dirige contra si próprio. Várias causas podem desencadear essa forma de violência, como estresse, sentimento de culpa e de inferioridade etc. e podem, no caso extremo, levar ao suicídio. Essa terceira forma de ação da pulsão de morte se apresenta em Rosa. Caiu da moto a 150 km/hora. Mais tarde dirá a Pedro que prefere moto a carro e que adora a velocidade. Na porta da sua casa, encontra com Pedro enquanto Javi está dormindo, correndo grande risco de levar os dois homens a um confronto físico. Quando Pedro foi assassinado, ela vivia um quadro de depressão e, por essa razão, estava de licença. A depressão é o resultado da ação das pulsões agressivas contra o próprio indivíduo.

Obs.: Esta série de artigos está incluída no projeto Cine Reflexão da Fundec.