Minissérie da Netflix: ‘Corpo em chamas’ (parte 8 de 10); um crime no meio policial

Por Cruzeiro do Sul

Thomas Hobbes

O homicídio de Pedro, um policial, tem a particularidade de ter sido planejado e executado por policiais. Podemos então formular uma pergunta: o que o crime tem a ver com a atividade profissional dos criminosos? Podemos tentar responder a essa questão utilizando várias formas de abordagem. Aqui recorrerei à psicanálise.

O filósofo inglês Thomas Hobbes, no livro “Leviatã”, afirma que os homens são naturalmente violentos e tendem a se manter em estado de guerra permanente uns com os outros. Motivado pelo medo dessa situação perigosa, o homem utiliza a razão para obter um acordo com os outros homens, segundo o qual todos renunciam ao direito de usar a própria força e transferem o direito legítimo de usar a força para uma única pessoa ou para um grupo de pessoas. Cria-se, assim, o Estado. De acordo com essas noções, só existe civilização onde existe Estado. O aparelho repressivo e preventivo do Estado garante a contenção do retorno da humanidade ao estado de guerra de todos contra todos.

A violência está contida na própria profissão do policial que exerce as atividades repressiva e preventiva do Estado. Quando a inspetora Ester Varona pergunta a Rosa se Javi seria capaz de cometer um crime tão violento, ou seja, o assassinato de Pedro, Rosa responde: “Ele é policial, não? Ele entende dessas coisas”.

Tenho escrito já algumas vezes nesta coluna que, em “Psicologia de grupo e análise do ego”, Freud afirmou uma das formas mais comuns de liberação dos instintos do indivíduo, quer os de vida, quer os de morte, ocorre quando ele se agrega a um grupo. Pessoas que se reúnem em grupos são capazes de atos de preservação da vida, de amor ao próximo, mas também podem ser capazes de efetuar atos de violência e brutalidade que normalmente não cometeriam isoladamente. O indivíduo passa a se sentir seguro e em harmonia social quando faz parte de um grupo que se constituiu com algum propósito específico religioso, político, racial etc. e com o qual comunga ideias pessoais. Geralmente, mas nem sempre, a formação do grupo é impulsionada por um líder carismático.

O indivíduo isolado pode ser culto, pacifista, obediente das leis; quando pertencente a um grupo, libera seus impulsos instintuais inconscientes, e as novas características que apresenta nada mais são do que manifestações desse inconsciente. O indivíduo passa então a manifestar seus desejos mais íntimos sem inibições e a exibir profundas formas de mudança de comportamento. Aflora tudo o que é mau na sua mente e que está contido ali como uma tendência. Desaparecem ou se transformam, nessa ocasião, sua percepção do que é moralmente certo ou errado, seu sistema de valores morais, suas convicções, seu senso de responsabilidade, seu discernimento e sua capacidade de pensar racionalmente. Como a civilização, conforme Freud, somente se constrói à custa da renúncia aos instintos, se estes são liberados livremente quando o indivíduo faz parte de um grupo, o efeito natural é sua descida de vários degraus na escada da civilização e ele se torna um bárbaro. O historiador Will Durant, no livro “A idade da fé” sintetizou esta condição lastimável ao afirmar que são necessários séculos para passar da barbárie para a civilização, mas para passar da civilização à barbárie basta um dia.

Obs.: Esta série de artigos está incluída no projeto Cine Reflexão da Fundec.