O celular no banco dos réus
Neste artigo, dissertaremos sobre uma problemática que está no centro das atenções da educação brasileira. Trata-se de uma questão delicada que envolve pais, alunos e educadores. Afinal, o uso do celular deve ou não ser proibido em sala de aula? O celular prejudica ou colabora com o aprendizado? Em tese, não há respostas mágicas para um assunto que exige uma análise desprovida de paixões. Mais do que isso, especialistas da área devem encontrar uma saída que passe longe do radicalismo. Porém, é interessante fazer um retrospecto sobre o impacto que esse aparelho causou, a partir de seu advento.
Talvez, o celular, dentre todas as invenções deste século, seja o que mais causa controvérsias, atualmente, na sociedade. Por quê? Simples: o uso desmedido desse aparelhinho tem resultado em inúmeras situações embaraçosas (às vezes, conflitantes) em vários ambientes (público ou privado). Ou seja, o celular está sempre à mão, seja numa alegre festinha de aniversário ou, mesmo, em um triste clima de velório. Assim, quase tudo vira selfie. O dia a dia é registrado pelos smartphones, que garantem postagem instantânea nas redes sociais, como uma espécie de “diário virtual”.
Também é notório perceber que, desde o momento em que essa novidade se tornou acessível à população, esses aparelhos viraram o sonho de consumo de milhões de pessoas pelo mundo afora. Logo, não importa o custo. O que vale, na verdade, é a sua capacidade de resolução. Quanto mais “chique”, mais caro! Embora o mercado também ofereça modelos mais simples, que são pouco visados, inclusive pelos ladrões. Outro dado interessante: nove, entre dez brasileiros, não saem de casa sem seu “telemóvel”.
Inclusive, muitos psicólogos afirmam que tais aparelhos dão uma falsa sensação de empoderamento aos usuários, especialmente aos jovens. É bizarro; mas, para muitos, estar sem o celular é o mesmo que sair às ruas despido. Há quem — em tom de brincadeira — diga que “fica sem rim, mas não fica sem celular”. Isso graças a sua diversificada funcionalidade: enviar e receber mensagens, tirar fotos, agendar eventos, despertador. Além disso, há inúmeros aplicativos com acesso a filmes, séries e jogos. Agora, com o Pix, é possível fazer transações financeiras imediatas. Até os documentos foram parar no celular, como o “e-Título”. Claro que essa parafernália enche os olhos de todos, especialmente das crianças.
Todavia, é no contexto pedagógico que há uma linha de tensão entre alunos e professores, pois os estudantes querem utilizar seus “brinquedinhos”, mesmo durante as aulas. Logo, não ficam atentos aos conteúdos. De certo modo, é compreensível, pois os celulares, aparentemente inofensivos, trazem consigo um forte apelo à diversão. Isso desvia a atenção de crianças e adolescentes (e até dos adultos). No entanto, pedagogos alertam: essa postura reflete no aprendizado.
Diante de tais consequências, o Ministério da Educação deseja restringir tal uso nas escolas brasileiras (públicas e particulares). Para isso, prepara um projeto de lei que pretende enviar aos parlamentares ainda neste ano. A ideia é proibir o celular, pelo menos durante as aulas, a fim de que haja mais aproveitamento das matérias. Só para lembrar, algumas escolas particulares, pegando carona no movimento “anticelular”, que surgiu em alguns países da Europa, já fazem tal proibição.
Em síntese, retomamos o questionamento inicial: tal restrição é positiva ou negativa? Com a palavra, pais, educadores e autoridades. A título de sugestão, alguns especialistas recomendam que o MEC, em vez de projeto de lei, faça, antes, um plebiscito, para que a sociedade opine. Como isso parece uma utopia, muitos professores torcem para que essa medida restritiva entre logo em vigor. Claro que o ideal seria o bom senso: o uso consciente. Ou seja, só com a autorização dos professores e com fins didáticos. Bom domingo!
João Alvarenga é professor de redação.