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João Alvarenga

A importância da gramática

26 de Outubro de 2024 às 21:05
Cruzeiro do Sul [email protected]
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. (Crédito: FREEPIK)

“Afinal, por que estudamos gramática?” Ao longo da vida profissional, muitos alunos já me fizeram essa pergunta. Geralmente, tal indagação vem acompanhada da seguinte justificativa: “eu já falo o português, não vejo necessidade de ficar decorando regras”. Ou seja, muitas crianças acreditam que, pelo fato de falarem o idioma, não há necessidade de estudá-lo. Claro que esse pensamento é ingênuo. Pois, na verdade, quando as crianças começam falar, geralmente, copiam os adultos, inclusive os possíveis erros que, se não forem corrigidos, poderão reverberar também na escrita. Por isso, a escola cumpre o papel de instrumentalizar o aluno para que ele faça o uso idioma dentro da norma padrão. Isso, para que o falante, na vida adulta, possa ter autonomia, numa sociedade cada vez mais competitiva, que exige conhecimento tecnológico e respostas rápidas para várias situações.

Nesse contexto, especialistas observam que, na primeira infância, quando a criança começa a falar, ocorre a chamada “apropriação indébita” da língua. Ou seja, nesse momento, não há nenhuma preocupação com a pronúncia correta das palavras. O foco da criança, nesse momento, é se comunicar com os pais para ter as suas necessidades básicas atendidas. No entanto, mais do que falar uma língua, é preciso compreendê-la, a fim de que se possa falar e escrever corretamente. Assim, quando a criança passa a frequentar a escola, inicia-se a fase de conhecimento do idioma e suas complexidades.

Quando estudamos gramática, entendemos os mecanismos de funcionamento da língua.

Percebemos que mais do que preservar a língua dos “ataques” do estrangeirismo, a gramática visa manter a integridade do idioma, para que a identidade do País não se perca. “É a língua que nos une e nos dá o sentido de nação”, observa o gramático Evanildo Bechara. Essa tarefa tem sido arduamente pensada pelos gramáticos. Para os historiadores, a obra “Os Lusíadas”, de Camões, “fundou” o idioma português. No Brasil, tornaram-se memoráveis os nomes de Rocha Lima, Domingos Paschoal Cegalla (cobrado em concursos), João Domingos Maia e Celso Pedro Luft. Já o professor Pasquale Cipró Neto, midiaticamente, simplificou o acesso às regras.

Assim, os professores defendem que é preciso entender a língua que se fala, a fim de respeitá-la. Afinal, nosso idioma é composto de muitas regras que, para um leigo, tornam-se incompreensíveis. Inclusive, muitos estudantes consideram que o excesso de regras não tem lógica. Isso é notório entre os alunos que gostam mais da área de exatas. Tanto que, antigamente, depois de matemática, talvez, a prova de gramática fosse a mais temida pelos estudantes, principalmente, quando as questões focavam a tal da conjugação verbal. Pois, essa parte da gramática normativa brasileira envolve muitos detalhes, que precisam ser observados atentamente.

Inclusive, lembro-me de que, durante as avaliações, os alunos precisavam ter pleno domínio dos modos e tempos verbais, especialmente o modo subjuntivo, que é tido, por muitos, como um dos mais complexos. Por isso, tal modelo de expressão anda meio ausente da fala coloquial brasileira. Quanto ao clima das provas do passado, também me recordo de um aspecto curioso: não se via alunos estudando o conteúdo, às vésperas da prova, durante as aulas de outros professores. Isso estava fora de cogitação. Aliás, havia a cultura de que estudar era em casa, já que, na escola, o aluno deveria colocar em prática o que foi estudado.

Por fim, isso obrigava os alunos a ter a matéria da prova na ponta da língua. Por quê? Simples: as provas não aconteciam como ocorrem, agora, com data e hora marcadas, a chamada “semana de provas”. Nos idos dos anos 70, além das avaliações convencionais, os mestres tinham o hábito de fazer provas surpresas ou, então, a angustiante “chamada oral”. Logo, durante as aulas, a atenção dos alunos era redobrada. Ou não passavam. Bom domingo!

João Alvarenga é professor de redação.