‘Síndrome do Imperador’ (parte 1)

Por Cruzeiro do Sul

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Sempre que ocorrem as tradicionais reuniões entre pais e educadores, para tratar de assuntos pedagógicos, sempre surgem as queixas sobre dificuldades no relacionamento entre pais e filhos. Nelas, muitos pais reclamam, com frequência, que não conseguem controlar seus filhos. Ou seja, não conseguem impor uma simples regra como, por exemplo, fazer com que durmam mais cedo. Ou, então, que ignorem o celular durante as refeições. Ler um bom livro, isso nem pensar! Nessas conversas, temos a impressão de que os progenitores se mostram impotentes diante de algumas situações do cotidiano. Muitos alegam que os pequenos estão cada vez mais desobedientes, egoístas, aprontões e, também, avessos aos estudos. Quem tem filho adolescente sabe muito como é essa situação, pois a relação fica mais tensa, já que há conflitos de interesses. Pior, parece que os jovens só pensam em lazer. “A diversão vem sempre em primeiro lugar”, desabafam algumas mães, pois suas filhas não ajudam nas tarefas domésticas.

Essas atitudes, de certo modo, tem comprometido, também, o relacionamento no ambiente escolar, algo que afeta diretamente o aprendizado de muitas crianças e jovens. Por quê? Simples: muitos alunos não fazem as tarefas escolares (em casa), deixando esses combinados pedagógicos para executar, durante as aulas. Os educadores lembram que isso não ajuda em nada, pois o tempo de aula é destinado à exposição dos conteúdos que os professores precisam ensinar, a fim de que os estudantes coloquem a teoria em prática em suas residências.

Claro que há casos particulares que merecem toda atenção, pois muitos problemas psicológicos e neurológicos surgem, a partir da pré-adolescência, que afetam o aspecto cognitivo de muitos alunos. É nessa hora que as famílias terão de procurar o auxílio de especialistas, a fim de encontrar o tratamento adequado.

Assim, na busca por respostas para questões tão delicadas, o psicopedagogo, Leo Fraiman, desenvolveu a polêmica teoria da “Síndrome do Imperador”. Nela, o especialista tenta explicar o porquê de tantos desajustes comportamentais que, infelizmente, estão cada vez mais presentes nos lares brasileiros, em que as crianças se sentem “empoderadas”. No fundo, são problemas de condutas inadequadas que, naturalmente, chegam às escolas (públicas e privadas), porque é, no ambiente escolar, que a criança terá de interagir com os coleguinhas e os professores. Ou seja, deverá respeitar as regras de convívio coletivo, a fim de garantir uma convivência saudável.

Mas, caso essa criança não tenha sido devidamente orientada por seus pais, para vivenciar essa nova realidade que se apresenta com muitas novidades, enfrentará dificuldades nesse novo ambiente, mas que se impõe na vida dessa criança de forma inevitável. Se não houver preparo, também, poderá comprometer seu futuro. Para Fraiman, crianças com dificuldades de lidar com limites poderão ter problemas de relacionamento, quando chegarem à fase adulta.

Em um livro, Fraiman aponta alguns fatores que explicam porque muitos filhos simplesmente ignoram as regras básicas de convívio doméstico e escolar. No seu entender, a origem da má conduta está na falta de limites. Fraiman não poupa críticas aos familiares, ao afirmar que esse problema começa na primeira infância. Ou seja, na falta de uma orientação adequada aos filhos. “Pais têm sido muito permissivos. Assim, fazem de tudo para agradar aos pequenos, pois temem que eles se frustrem”. Isso explica porque os jovens insistem em usar o celular em sala de aula.

Resumindo, uma criança que nunca ouviu um “NÃO”, jamais aceitará ser contrariada. Nesse aspecto, Fraiman enfatiza: “A superproteção é nociva à criança”. Lembra que essa atitude é muito perigosa, pois a criança poderá se tornar um adolescente rebelde (ou deprimido). Pior, será um adulto incorrigível. Mas, isso é assunto da semana que vem. Bom domingo!

João Alvarenga é professor de redação.