A política brasileira está no fundo do poço? Espero que sim
“Pior do que tá não fica, vote Tiririca” — Francisco Everardo Oliveira Silva.
Infelizmente o slogan usado pelo então candidato em 2009 se mostrou errôneo e o Brasil piorou muito de lá pra cá, sobretudo no que se refere ao crescimento econômico, desemprego, renda e até mesmo na qualidade dos políticos e, obviamente, dos eleitores.
Vemos a baixa qualidade ou mesmo a ausência completa de propostas, em debates cercados por ataques pessoais, insinuações criminosas e, agora, até mesmo agressões físicas que ao invés de gerar a reflexão sobre o caminho que estamos trilhando enquanto sociedade, vemos as redes sociais se enchendo de memes e brincadeiras, num claro sinal de que “lacrar” dá muito mais visualizações que demostrar soluções para os reais problemas das cidades.
Temas que até então eram considerados sérios e até sagrados para nossa sociedade, como política e a religião, estão passando a ser tratados como mero entretenimento, como era o futebol e as novelas em seu auge de audiência.
Políticos e alguns religiosos passaram a se apresentar como influenciadores, prendendo a atenção da audiência com danças, músicas e brincadeiras, de forma bastante parecida como faziam Silvio Santos e Chacrinha, mas eles para levar divertimento e alegria para os domingos dos brasileiros.
O livro “Rápido e Devagar duas formas de pensar” do psicólogo, economista e vencedor do Prêmio Nobel de Ciências Econômicas de 2002, Daniel Kahneman, explica que o cérebro humano toma decisões de duas formas: A primeira, chamada de Sistema 1, decide de forma rápida, baseada em nossos sentimentos e conceitos já formados em experiências anteriores, com pouco ou nenhum esforço, como, por exemplo, ao escolher uma comida gordurosa, um doce bem apresentado ou que escolhemos um caminho mais iluminado e conhecido ao fazer um trajeto a noite. É a forma como tomamos a maioria das decisões em nosso dia-a-dia, sem grandes esforços, estudos ou tratados filosóficos.
Por sua vez, a segunda forma de tomada de decisões, o sistema lógico, exige maior esforço por parte do cidadão, paciência e foco, para realmente pensar em todas as possibilidades e consequências de nossas escolhas, como para realizar um alto investimento empresarial, escolher o curso universitário ou profissionais de alta confiança, como deveria ser o caso dos políticos.
Na maioria das vezes nós tomamos as decisões usando o sistema rápido e só depois buscamos algum sentido para a nossa decisão, por exemplo, nos apaixonamos por uma roupa na vitrine e decidimos pela compra, depois buscamos justificativas para essa compra, “preciso de um vestido para alguma ocasião”, “aquele ali é bem mais caro, então até que o preço está bom”, “nossa, vai combinar com aquele outro sapato que já estou namorando”.
Por sua vez, conhecendo os meandros da mente humana, o marketing político passou a utilizar dessas ferramentas para confundir as decisões do eleitor, fazendo com que traga escolhas complexas para o sistema irracional, trazendo para um falso debate temas extremamente emocionais, como o abordo, a miséria e a sexualidade, ao invés de tratar dos temas que verdadeiramente são do interesse da política, como a construção de infraestrutura, a melhora do sistema de saúde pública ou o planejamento da educação em consonância com a empregabilidade.
Você faria uma cirurgia com um médico que ficasse o dia todo apenas “lacrando” na internet? Confiaria sua liberdade ou seu patrimônio a um advogado que dissesse com orgulho que não entende nada das relações jurídicas, que é de fora do sistema e que vai resolver os problemas xingando o sistema judiciário?
Espero sinceramente que não e, devido a nossa inteligência racional e ausência de marketing ostensivo nesses segmentos, ainda pensamos de forma lógica para contratação desses profissionais.
Contudo, da mesma forma, deveríamos votar de forma consciente, dedicar tempo para a escolha, analisar a vida do candidato, para o que faz além do discurso político, se tem a postura, a cultura e a equipe necessária para entender os problemas e apresentar soluções racionais para os problemas reais que enfrentamos todos os dias em nossas cidades.
Dependendo das escolhas políticas, podemos ver a previdência social totalmente quebrada, a falta de medicamentos que poderiam salvar vidas ou o fim dos investimentos em zeladoria e o abandono das cidades.
Aliás, todos sabemos que o Brasil tem potencial para ser a grande nação que todos desejamos, já fomos o país que mais se desenvolveu em diversos momentos da história mundial, com o Plano Nacional de Desenvolvimento empreendido por Getúlio Vargas, com as políticas de crescimento implementadas por Juscelino Kubitschek, da criação de Brasília, da Bossa Nova e do Cinema Novo, que colocaram o Brasil na vanguarda econômica e da cultura mundial, tudo isso com o mesmo solo, o mesmo clima e o mesmo povo.
Mesmo num passado não tão distante ainda tivemos políticos sérios, professores e intelectuais, tanto de “direita”, como de “esquerda” ou de “centro”, termos que não precisavam ser usados politicamente, quando as pessoas se importavam mais com propostas que com publicidade. Com seus inúmeros defeitos, mas dignos de seus cargos, tivemos na política nomes como de Darcy Ribeiro, Antonio Carlos Pannunzio, Florestan Fernandes, Ulisses Guimarães e Fernando Henrique Cardoso.
O Brasil merece muito mais do que temos hoje, mas será apenas com a conscientização do eleitor que veremos, depois, o reflexo na postura e no debate político, temos de dedicar tempo para conhecer pelo menos o básico da legislação eleitoral, da divisão dos poderes, das atribuições dos Estados, da União e dos Municípios para, só assim, conseguirmos debater e pensar de forma racional, clara e sem as fortes emoções negativas que dominaram o cenário político brasileiro.
Espero verdadeiramente que estejamos já no fundo do poço da política brasileira para, daqui pra frente, podermos merecer um país melhor.
André Tolentino é advogado