As lágrimas e o lenço: histórias da vida

Chorar faz bem à saúde mental e, também, à saúde física

Por Cruzeiro do Sul

 

Quantos escritórios de advocacia existem, no Brasil, especializados em divórcios? Em uma visita a um desses escritórios, um amigo me contou que o advogado lhe disse que há a necessidade de sempre deixar uma caixa de lenços de papel, na mesa da reunião, na qual acontece a intermediação dos cônjuges. Ele me relatou, ainda, sobre o uso bastante intenso desses lencinhos, durante a consulta do casal que pretende se separar. As lágrimas surgem na mulher e no homem, pois na conversa sempre aparecem os filhos nas histórias. Afinal, o que lenço de papel tem a ver com separação judicial?

Resolvi perguntar a um advogado sobre essa realidade.

As lágrimas são constantes, contou-me o advogado, quando o indaguei sobre esse assunto. Marido e mulher, normalmente, chegam ao escritório numa calma intensa, e até parece que são amigos felizes de longa data, como o foram, no dia do casamento, ressaltou o jurista. Depois de trinta minutos de desabafos, tudo começa a mudar. As histórias de conflitos conjugais surgem lentamente e os sentimentos de rejeição tomam conta das emoções. Os lenços entram em ação nesse instante. Choraram de alegria no altar e, depois, na separação. É a “morte” de um sacramento, disse-me um sacerdote católico que atende a casais, dizendo: “O que Deus ajuntou não separe o homem”, Mateus 19.

Um segundo capítulo desses papéis que, um dia já foram árvores trituradas em máquinas, para se transformar em lenços, refere-se à estação de inverno, pela incidência de gripes e resfriados. As farmácias montam bancas imensas em seus corredores, com promoções que incentivam o consumo desses delicados lencinhos. E, se não bastasse essa estratégia de comercialização, as indústrias ainda ilustram as caixas de lenços com figuras infantis com personagens dos desenhos animados que ganham vida nos papelões coloridos que protegem o produto. As crianças adoram levá-los para casa.

A terceira investida dos lenços de papel que substituíram os antigos e tradicionais lenços de tecido do começo do século 20, está focada na limpeza do nariz. Basta acessar a internet e pesquisar qual foi o motivo dessa invenção e aparecerão imagens de pessoas assuando as narinas. E as explicações técnicas são incisivas: “O lenço de papel é a melhor opção para essa finalidade, uma vez que ele não irrita ou agride a pele do nariz e, também, por ser descartável, é mais higiênico.” Ou seja, evita que as bactérias liberadas junto com a coriza retornem ao organismo.

Para entender como surgiu a invenção, em 1872, do lenço de papel, a Kimberly-Clark criou, em 1914, bem no início da Primeira Guerra Mundial, o “cellucotton” -- um substituto macio e absorvente feito de celulose da polpa de madeira e de uma pequena quantidade de algodão. Mas, foi só em 12 de junho de 1924, que os lenços faciais descartáveis da marca foram inventados, comercializados em caixas contendo 100 folhas.

A princípio, o produto foi destinado apenas ao público feminino, visando remover cremes e maquiagem. Apesar de a empresa ter apostado em anúncios apelativos, como “O novo segredo usado por estrelas do cinema que mantém a pele bonita”, os lenços foram considerados uma extravagância para época, devido ao seu alto custo (65 centavos) -- afinal era só um pedaço de papel retangular, relata a história contada pela Clark, com a inclusão de um detalhe sobre os homens. Após ingressar no mercado canadense como uma opção higiênica aos tradicionais lenços de pano, que os homens carregavam no bolso, os lenços de papel começaram a se popularizar no mundo masculino.

Histórias e curiosidades à parte, os psicólogos afirmam ser “importante saber que chorar faz bem à saúde mental e, também, à saúde física. Derramar lágrimas -- o choro -- é isso, uma resposta molhada a uma variedade de emoções, uma válvula de drenagem importante para as sensações”.

O evangelho de Lucas 19,41-44, fala que Jesus se aproximou de Jerusalém, contemplou a cidade e começou a chorar por causa dela. Hoje com a guerra em Israel, certamente Jesus choraria de novo. Maria, a mãe de Jesus chorou ao acompanhar o seu filho no Calvário. Hoje ela é reverenciada como Nossa Senhora das Lágrimas. A oração, pedindo a sua intercessão, segundo me contou um casal, salvou o casamento e as lágrimas foram substituídas pelos sorrisos com os filhos.

Vanderlei Testa (artigovanderleitesta@gmail.com) é jornalista e publicitário; escreve ás terças-feiras no jornal Cruzeiro do Sul